
      BEM-VINDOS AO RIO

Marcos Rey


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Voc conhece todos os livros da Srie Vaga-lume?
Marque com um X os que voc J leu:

E A Ilha Perdida                                   E A Serra dos Dois Meninos
Li Cabra das Rocas                                 E O mistrio do cinco estrelas
E Cem noites tapuias                               E Zezinho o dono da porquinha preta
O Corao de Ona                                  O Um cadver ouve rdio
E) ramos seis                                     ii O feijo e o sonho
E) o caso da borboleta Atina                       Ci A primeira reportagem
E] O escaravelho do diabo                          Li Sozinha no mundo
 O gigante de botas                               Li Os pequenos jangadeiros
 Menino de Asas                                   O Os barcos de papel
E Tonico                                           O Deus me livre!
o Spharion                                         O Dinheiro do cu
Ci O rapto do Garoto de Ouro                       E] A grande fuga
O O mistrio dos morros dourados                   E] Perigos no mar
E Aventuras de Xisto                               E Bem-vindos ao Rio
 Xisto e o pssaro csmico                        Li Pega ladro
 Xisto no espao                                  O Acar amargo
O Tonico e Carnia                                 0 0 outro lado da Ilha
                            TEXTO
                   Edio: Fernando Palilio
             Assistncia: Marta de Mello e Sotia
       Suplemento de trabalho: Antonio Carlos 011vieri
          Preparao dos originais: Pedro Cunha Ir.
                            ARTE
              Edio: Antnio do Amarei Rocha
         Layout de opa: Ary de Almeida Nornianha
 ilustraes de capa e miolo: Cludio Rocha e 38 Fevereiro
           Diagramaio: Elaine Regina de Oliveira
               Arte-final: Ren Etiene Ardanuy




                ISBN 85 08 01583 6




                         11986
          Todos os direitos reservados
Editora tica S.A.     Rua Baro de Iguape, 110
Tel.: (PABX) 278-9322 - Caixa Postal 8656
   End. Telegrfico 'lsomlivro" - So Paulo
                    QUEM4 O AUTOR
     Marcos Rey chegou  Escola para bater um papo com seus
leitores. No ptio, sentados, reuniam-se alunos da 5a  8a srie.
Ele foi logo dizendo que no faria nenhum discurso, preferia
responder a perguntas, como se cada aluno fosse um reprter
de jornal ou televiso. A primeira pergunta custou um pouco
a sair mas saiu.
    Aluno - Quem foi que o estimulou a escrever?
     Marcos - Foi o prprio livro. Meu pai. Lus Donato, era
grfico e encadernador. Minha casa vivia cheia de livros. Um
dia resolvi ler um deles. E adquiri o hbito da leitura. Da a
comear a escrever no demorou muito.
     Aluno - Foi fcil publicar seu primeiro livro?
     Marcos - Foi difcil escrever e mais difcil ainda publicar.
Durante quatro anos os editores o recusaram. Chamava-se Um
gato no tringulo. Nada  fcil no incio, seja qual for a car-
reira.
     Aluno - Pr efere escrever livros para adultos ou para a
juventude?
    Marcos - Para mim no h diferena, pois muitos adultos
lem meus livros para a juventude e muitos jovens j esto
lendo meus livros para adultos.
    Aluno - Quais os livros que j. escreveu para jovens?
    Marcos - O mistrio do cinco estrelas, O rapto do Garoto
de Ouro, Um cadver ouve rdio, Sozinha no mundo, Dinheiro
do cu e este. Para crian s at a 5 8 srie s um: No era
uma vez.
    Aluno - E quantos pa 'a adultos?
    Marcos - Somando E         )mances e livros de contos, doze.
Pela tica saram Malditos     paulistas, um policial superquente,
A ltima corrida, cheio de     emoes e surpresas, A arca dos
marechais, com muito sus        nse e, perigo em cada pgina e
Esta noite ou nunca, para      uem quiser saber algo mais sobre
o mundo e a vida.
    Aluno - Quanto demc          para escrever um livro?
     Marcos - Depende dc        amanho,  claro. - Mas antes de
escrever h outro trabalho:     inejat a histria. Isso pode levar
muito tempo. Depois sim,        )m uni resumo feito, comeo a
escrever. Mas no pensem        ue acerto logo na primeira vez.
Geralmente,  s na terceira    ue o prato pode ser servido.
      Aluno - Que mensagei      ou conselho gostaria de transmi-
tir aos seus leitores?
     Marcos - Que procure      i ler muito, mesmo se no senti-
rem vocao pelas letras. A    leitura, alm do prazer que pro-
porciona, desenvolve o racio   ruo e passa toda a sorte de conhe-
cimento. Tudo que o home          sabe est nos livros, sejam de
estudo ou fico. Mesmo n        tendo o hbito da leitura, voc
poder at ser um bom alun(     o primeiro da classe, mas a vida
no termina com um dinlom       termina?
                    RIO, ESTOU AQUI!
      A mo que mais acenava (em mdia dez adeuses por
segundo!) era de Cludio; o aeroporto, no um qualquer, mas
o Galeo, internacional, cheio de truques de computao, um
luxo! E quem partia naquele Jumbo era o Giba (Gilberto),
retrato em todas as pginas esportivas dos jornais, um dos
ases do vlei, irmo de Cludio. O time seguia para Gua-
dalajara. Mxico, onde se realizaria um interclube muito
badalado. Imaginem o entusiasmo de Giba em sua primeira
viagem ao exterior. Cludio, o caula, seis anos mais jovem,
acompanhara-o de Curitiba, residncia da famlia. Ele tambm
fazia sua primeira viagem sem os pai's e nunca estivera no Rio.
      - Eu lhe pago a passagem de ida e volta - dissera-lhe o
craque. - E ainda lhe dou um dinheiro para ficar trs dias na
Cidade Maravilhosa. Isso, claro, se seu Walter e dona Celina
permitirem.
      Cludio estava de frias na escola, seus pais permitiram,
mas depois de mil advertncias. Toda cidade com milhes de
habitantes  perigosa, que tivesse todo cuidado e s fechasse os
olhos pra dormir. Sempre alerta, como os escoteiros.
      Quando o Jumbo desapareceu no cu, Cludio, que che-
gara na vspera,  noite, teve a impresso desagradvel de estar
 perdido e achou que trs dias seria tempo demais para um
 turista solitrio. Retirou do bolso um guia turstico da cidade.
 Consultou-o l mesmo, no aeroporto. Como se ia ao Cor-
 covado?
          A GAROTA QUE VEIO DE BRASLIA.
       Pat, Patrcia para os no-ntimos, j estivera no Rio de
 Janeiro, mas com um aninho. Filha dum arquiteto paulistano,
 pioneiro da construo da nova capital, vivia em Brasilia, onde
 nascera. Conhecia So Paulo, onde tinha parentes, bem como
 Goinia e Belo Horizonte, porm envergonhava-se duma coisa,
 que no confessava s colegas do colgio: nunca vira o mar.
 H meses, contudo - que sorte! -, uma de suas tias, viva,
 mudara-se para o Rio e convidara-a para passar as frias no
 seu pequeno apartamento em Ipanema. Pat disse sim pelo
 telefone e pegou o avio.
      Na primeira semana de Pat no Rio, ela e a tia passearam
 o tempo todo e deu praia todas as manhs. O sol ajudou. 
 tarde, os roteiros turstico Po de Acar, Corcovado, Jardim
 Botnico, Quinta da Boa Vista, Paquet;  noite, teatros, salas
 de concertos, restaurantesJ Na segunda semana, Elisa, a tia
 d'e Pai, que j no era.moba quando a sobrinha nasceu, pifou.
      - Me d um dia de olga - pediu. - No tenho o seu
 flego, gata.
      - Mas eu queria ir a Santa Teresa, ver os Arcos, o
 Catete...
      - Iremos amanh, ti?
      No dia seguinte tia bisa continuava pifada. Alm de
exausta, estava com os ps inchados; o calor fazia isso com ela.
Ficaram as duas assistindo televiso, porm Pat log se cansou.
      - Me deixa dar meus passeios sozinha, tia?
      - Voc no vai se prder?
          J sei me orientar aqui e depois existem txis, no?
      Pat adorou pegar o bondinho de Santa Teresa e mesmo
sozinha se divertiu bastante, O Rio  lindo!, dizia-se a todo
instante. Foi at o fim d linha e voltou sem desmanchar o
mesmo sorriso. Ao retornar ao ponto de partida, lembrou-se
de visitar o palcio do .Ca4te. residncia de tantos presidentes,
e que, aps a transferncia da capital para Brasflia, virara
museu. A distncia no era longa; melhor, porque podia ir a
p e ver o povo, pois um a1 cidade no  feita apenas de cons-
trues e paisagens. o mdis importante  sua populao.
8
   O ANJO COLORIDO E O CRISTO REDENTOR
     No primeiro dia de Rio, Cludio no parou um s mo-
mento. No Corcovado viu a coisa mais bonita, uma asa deita
voando em torno do Cristo como um grande anjo colorido.
Ignorava que se fazia a viagem ao Po de Acar em duas eta-
pas; no morro da Urca, a primeira, tomou um imenso sorvete.
Depois foi at Niteri pela ponte que a liga ao Rio; ficou des-
lumbrado. Mas voltou de barco, no tinha pressa. No era s
o prazer de ver, sentia-se livre, dono de seus prprios passos,
mais adulto. Retomou ao hotel quase noite. Nunca estivera
sozinho num hotel; achou bacana pedir a chave, subir pelo
elevador e entrar em seu apartamento. Havia tudo l, telefone,
televiso a cores, rdio e um frigobar. Apanhou um refrige-
rante e com ares de importante ligou para a copa e pediu um
sanduche.
      Enquanto comia e bebia, assistia a programas de televiso.
Passava uma telenovela. Ocorreu-lhe que sua me e sua irm
faziam o mesmo naquele momento. Mal a saudade bateu, tocou
o telefone. Quem seria? Ora, quem podia ser.
      - Voc est bem, meu filho?
      - Mame! tudo bem comigo! Hoje cedo fui com o Giba
 para o Galeo. Acho que j chegou no Mxico.
          Quando volta, amanh?
      - No, depois de amanh, como ficou combinado.
      - Voc no vai sair  noite, no?
      - Vou ficar no hotel. Estou cansado, passeei muito. Puxa,
 como o Rio  grande!
      - Muito cuidado, filho. Sua irm est mandando lem-
 branas.
      - Um beijo pra ela e outro pro velho.
      - O que est fazendo agora?
      - Comendo sanduche, tomando refrigerante e vendo te-
 leviso.
      - Tome um bom banho antes de dormir.
      - Claro!
      - Seu pai est aqui dizendo que sente inveja. Ele adora
 o Rio. Um beijo e boa noite. No tome muito gelado que
 voc se resfria.                                   -
      - Tchau, me. E no se preocupe.
      Mais tarde, j no telejornal, Cludio arregalou os olhos e
 aumentou o volume da televiso: l estava o time de vlei,
 partindo para o Mxico, o biba em primeiro plano, num teipe
 da manh no Galeo. No boderia haver melhor imagem para
 encerrar a noite.




               MEU DEUS, IONDE EST PAr?

       Cludio levantou-se cedo e foi tomar caf no luxuoso re-
  feitrio do hotel. Caf? Aquilo era uma refeio! Gostoso ser
  tratado com ateno pelosi garons, "aceita mais, senhor?",
 enquanto encenava uma naturalidade de quem estava habitua-
 do a hospedar-se sozinho em hotis de luxo. Comeu e bebeu
 tudo a que tinha direito e dpois rua.
       Pegou um txi para conhecer o centro, a parte histrica
 da cidade, visita recomendada pelo guia turstico. Passeou por
 ruas estreitas, muito movimentadas, tomou sorvete na cente-
 nria confeitaria Colombo, fercorreu de ponta a ponta a ave-
 nida Rio Branco, conheceu  Lapa, dos sambas de Noel Rosa,
 chegou ao bairro do Catete, onde um edifcio majestoso e antigo
 lhe chamou a ateno. J o vira em reportagens pela televiso,
 a residncia e local de trabalho dos presidentes quando o Rio
 de Janeiro era a capital federal. Consultou o guia; aquilo viram
 museu. Por que no visit-lo? Mais coisa para contar  famlia
 e aos amigos em sua volta.
      Logo no saguo Cludio impressionou-se com a sobriedade
de tons escuros dos mveis, verdadeiro retrato duma poca
extinta. Viu um cicerone que guiava os passos e fornecia escla-
recimentos a um pequeno grupo de visitantes. Agregou-se a ele,
ouvindo atenciosamente. Ogrupo +subiu escadas de mrmore
e circulou por muitos sales, silenciosos e graves, nos quais o
tempo parecia ter parado.  Chegaram  sala de reunio dos
ministros, ponto de partida de grandes decises; penetraram no
escritrio particular dos presidentes, onde s os mais chegados
tinham acesso. Daquela janela o presidente Vargas trocara
tiros com os integralistas. A ltima porta abriu-se para o quarto
de Vargas, onde ele se suicidara em .agosto de 1954.
10
     Cludio ouvia tudo mas seus olhos no se voltavam apenas
para a Histria. Entre os visitantes quase todos na faixa etria
de seu pai, havia uma garota duns quinze ou dezesseis anos,
muito bonita, que tambm deixara de fixar alguns detalhes do
Catete para olh-lo; Antes do final da visita Cludio j con-
clura que ela estava, sozinha como ele, observao que inten-
sificou sua curiosidade. Desde a partida do mano, na manh
anterior, s falara com garons, com a camareira e com a me,
pelo telefone. Mesmo se a garota fosse feia gostaria de puxar
conversa. Ela seria carioca? Supunha que no.
     O grupo saa do Catete, desfazendo-se, mas a garota per-
maneceu  porta, como se no soubesse para que lado ir. Para
Cludio aquela pareceu urna oportunidade de encomenda. Apro-
ximou-se, fabricando um tom de voz de quem no quer nada
alm duma informao:
     - Por favor, onde fica o Museu de Arte Moderna?
      Ela olhou para ele e riu.
     - Engraado, era justamente para onde eu queria ir.
     - Voc no  daqui?
      - Sou de Braslia, j vim ao Rio uma vez, mas tinha um
ano de idade. Estou passando parte das frias aqui, no aparta-
mento de minha tia, em Ipanema.
      - Eu tambm estou no Rio pela primeira vez. Cheguei
ontem e vou embora amanh. Vim acompanhar meu irmo
mais velho, que partiu ontem para o Mxico, jogador de vlei.
      - De que cidade voc ?
      - Curitiba.
      - No conheo Curitiba, mas se h coisa que pretendo
nesta vida  viajar muito. Acho que no h nada melhor. Diga,
est gostando do Rio?
      - Se estou! E no apenas das belezas naturais, gosto desta
parte velha, que j era assim no comeo do sculo ou ainda
antes.. Quanta gente que estudamos na escola, nas aulas de
Histria, j passou por aqui. Mas voc quer ir ao Museu de
Arte Moderna? Vamos juntos?
      - Voc no sabe onde !
      Cludio tirou o guia turstico do bolso. Fingiu que o con-
sultava, pois j sabia onde era.
      -  perto da praia, pode-se ir a p.
      - Como  seu nome?
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     - Por favor, onde 'fica o Museu de Arte Moderna?
    - Engraado, era justamente para onde eu queria ir.
     - Cludio.
     - O meu  Patrcia, mas todos me chamam de Pai.
     - Tambm chamarei, Pai. Vamos por l, acho que a
gente chega.
     Lentamente Pai e Cludio afastaram-se do Palcio do Ca-
tete sem notar que eram observados e depois seguidos. Atra-
vessaram a rua e dobraram uma esquina sob olhos atentos. Num
trecho os dois apressaram os passos; uma sombra que os perse-
guia tambm se apressou. Mais adiante, Cludio ficou indeciso.
Estariam no caminho certo? No  fcil orientar-se pelos pe-
quenos e simplificados mapas tursticos de bolso. Quase sempre
uma informao oral  mais clara e segura. Pararam, mas no
passava ningum que lhes pudesse dar informao. Cludio
viu apenas alguns moleques na calada, grandes, mas que com
certeza no conheciam a localizao de nenhum museu. E se
fossem de txi?
      - Acho melhor - disse Pai. - Assim ganhamos tempo
para depois tomarmos um refrigerante.
      Postaram-se  beira da calada, mas notaram que no pas-
 sava carro algum.
      - O trnsito est interrompido - concluiu Cludio. -
 Algum conserto de rua.
      - Temos mesmo de ir a p. D outra olhada no mapa.
      - L tem um boteco - disse o rapaz. - Espere um mo-
 mento, vou pedir informao.
      Cludio atravessou a rua e entrou no bar. Nenhum fregus,
 apenas um homem que dormitava de p, atrs do balco.
      - Por favor, como fao para ir ao museu?
          Que museu?
      - O de Arte Moderna.
      - Arte Moderna? Nunca ouvi falar nisso.
      Cludio saiu do boteco, olhou para o outro lado da rua
 e no viu Pai. Que acontecera? Ela no teria tempo para che-
 gar  esquina. Atravessou intrigado, observando que os mole-
 ques tambm tinham desaparecido. E no viu nenhuma casa
 comercial onde ela pudesse ter entrado para fazer compras,
 apenas residncias baixas e antigas, de fachada descorada. Essa
 uniformidade de construes somente em quebrada por um
 casaro ali bem perto de onde ele e Pai haviam estado, mas de
 aparncia muito mais decrpita, provavelmente abandonado,
                                                              13
j que parte dos tijolos da frente estava  mostra, corno uma
demolio interrompida. Passou um homem apressado, que
Gudio pensou chamar pafa lhe perguntar de Pat, porm no
o fez porque ele no poderia t-la visto. Resolveu gritar:
     - Pat! Patrcia! Pat! r Onde est voc? Pat!
     Sem ouvir resposta, apenas t prpria voz, solta na rua,
concentrou sua ateno no casaro. Se Pat estivesse sendo vti-
ma dum tarado ou demente, somente l ele poderia estar ento-
cado. Comeou a espancar o porto com os punhos. Apesar
de cheio de rachaduras era muito resistente. Havia campainha,
mas sem boto, somente fios enrolados. Passou a dar pontaps
no porto, chamando desesperado por Pat. Nenhum resultado.
Voltou o olhar para a rua, prourando algum que pudesse
ajud-lo. Do outro lado Viu uma mulher que se afastava, e
longe um menino tentando empinar um papagaio. Que deveria
fazer? Tocar a campainha das casas prximas e dizer que sua
companheira desaparecera? Perguntar se havia manacos no
qurteiro? Se aquela casa estava mesmo abandonada? En-
quanto lanava perguntas sem som, o tempo passava. O que
poderia estar acontecendo com Pat? Voltou a gritar pelo seu
nome e de quando em quando esmurrava o porto.
     J tinha decidido procurar um telefone para chamar a
polcia, quando ouviu algns ruuilos confusos, talvez passos e
vozes, e o porto, arrastando no cho, se abriu.




14
         OS DOIS NA CASA ABANDONADA
      Gudio viu-se diante de dois, depois trs, rapazes de sua
idade, um mais moo, formando um quadro inesperado, de
cores misturadas e desenhos diversos. Usavam camisetas colo-
ridas, vistosas, uma delas com letras impressas, o que para
Cludio era tudo apenas um borro, surpreso que estava. No
gostou da cara deles; no pareciam agressivos, mas no gostou
da cara deles.
      - Por que est batendo no porto? - perguntou um
deles.
      - Procuro uma garota que estava comigo.
      - Algum disse que ela est aqui?
      - Ningum, mas foi aqui que ela desapareceu. Eu me
afastei um minuto s, no podia ter chegado at a esquina.
      Eles se olharam, ainda no tinham um plano, s receios.
      - Voc  irmo dela? - perguntou o mais alto.
      - O que interessa o que sou dela? Para mim ela est
 a dentro, e se no a soltarem, chamo a polcia - ameaou
 Cludio sem muita convico.
      Um, de camiseta amarela, espiou a rua dum lado e outro.
      -  a que teve um desmaio? Se for essa...
      O mais alto, cuja camiseta tinha uma legenda BEM-VIN-
 DOS..., fez uma cara mais amigvel e escancarou a porta.
      - Por que no disse logo? Voc procura a moa que teve
 um treco. Minha tia ia saindo, viu ela, cai-no-cai, e a levou
 pra dentro. Quer conferir?
      - Mora gente a? - admirou-se Cludio.
      - A casa est caindo aos pedaos mas mora. Entre.
       Gudio hesitou, no convencido da histria do desmaio.
 Se Pat estivera to bem o tempo todo, por que perderia os seu-
 tidos? A no ser que sofresse de alguma doena, como epilep-
 sia. Afinal, conhecera-a naquela mesma hora. Podia ser.
       O do BEM-VINDOS AO... fez um ar impaciente.
       - Minha tia no vai deixar ela sair, antes de ficar boa.
 Ela foi enfermeira.
       Sem pensar mais em nada, apenas querendo rever Pat,
 Cludio entrou.
       Os quatro seguiram por um corredor de cimento. Gudio,
 que ia atrs, estranhou a claridade que havia l dentro. Olhou
                                                             15
  para o alto: era a luz do sol, ps parte da cobertura j no
  existia. Como era possvel morai numa casa assim? No fim
  do corredor entraram no que deslia ser uma sala de refeies,
  porm sem mveis de nenhuma espcie, revelando o estado das
  paredes, cobertas por mahchas de umidade. Havia ali duas
  janelas, mas s uma delas possua! parte da vidraa. Chegaram
   cozinha, imensa e revestida de lhdrilhos enegrecidos. De m-
  veis apenas uma mesa comprida algumas cadeiras, alm dum
  fogo, dos mais antigos, maior do que lodos os que Cludio
 j vira.
       - Onde est Patrcia:? -perguntou Cludio inquieto.
       - Voc j vai ver ela - disse o da camiseta com legenda.
 - Est naquele quarto.
       Pararam todos diantedum cmodo que devia ser uma des-
 pensa ou quarto de empregada. Estava fechado a chave. Por
 qu? Um gesto ordenou que Cludio entrasse. Entrou, preci-
 pitadamente. Era um pequeno qdarto escuro sem nenhum m-
 vel. No cho apenas um] saco db estopa. Pat estava largada
 sobre ele, chora.jido. Ao ver Cludio parou de chorar e er-
 gueu-se.
       - Cludio, que bom]que est aqui!
       - O que aconteceu?' Voc sofreu um desmaio?
       - Eles me pegaram! Como  que entrou aqui?
       A prta ento fechou-se e ouviram o barulho da chave.
 Cludio correu e comeou a esmuki--la. Logo, porm, a atitude
 pareceu-lhe intil. Voltou-se para Pat.
      - Me disseram que voce teve um desmaio e que foi socor-
 rida pela tia deles. No foi assim?
      - Mentiram! Trouxeram-m para c  fora assim que
voc entrou no bar.
      - Ninguni viu fazerem isso?
          Acho qu no. Foi to pido! Quando se aproxima-
ram no desconfiei de nada. Penei que fossem me pedir algu-
ma informao.
      - So aqueles que estavam, na rua ou so outros?
      - Dois j estavam iquando!chegamos. Um, o mais alto,
que tem a camiseta escrita, paree que chegou depois. Tive a
impresso de ter visto ele.logo que samos do palcio.
      - Disseram o que iam fazer com voc?
16
                                                      C


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 porta ento fechou-se, e ouviram a chave.           e e
                                                       /AeeeK
  Cludio correu e comeou a esmurr-la.           . se.
                                                   . 1    :
                                                   e e
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     - No disseram nada, nada mesmo Estou morrendo de
medo, Gudio.
     - Eu tambm, e no tenho a knenor idia do que vo fazer
com a gente.
     - Mas que casa  essa? Unia penso ou o qu?
     Gudio j no tinha dvida.
     -  um casaro abandonado, certamente vai ser demo-
lido. Os marginais sempre[ ocupam esses lugares. Veja! Tem
fio mas no tem lmpada. No deve ter gua nem luz.
     Pat voltou a chorar.
     - O que vo fazer com a geilte? - balbuciou.
     --No sei
     - Vo nos matar?
     - Por que fariam iso? No lucrariam nada. Vamos
esperar.




                    ESPERA DO CHEFE

     Havia um quarto grande que servia de depsito. L arma-
zenavam tudo que roubavam. No cho, pilhas de camisetas,
produto dum assalto a alguma loja, rdios de pilha, acessrios
de automveis e sacos plsticos cheios de correntinhas de ouro,
alm de jias de valor duvidoso. Encostado  parede, um violo
de caixa preta.
     Nenhum dos trs pivetes estava preocupado em avaliar o
estoque. Tinham problemas. O mais alto, um tipo narigudo,
forte, era o que usava a camiseta branca com a frase impressa
em letras azuis: BEM-VINDOS AO RIO. Outro, um pouco
menor, moreno, de gestos espontneos, usava camiseta dum
amarelo bem vivo. O terceiro era ainda menino, no mximo
quatorze anos; vestia camiseta de diversas cores, nova como a
dos outros.
     - No sei se o chefe vai gostar - disse o de camiseta
amarela.
     - Aqui no h chefe - rebteu o mais alto.
     - Como no? O Baixo  o chefe - disse o menor. - 
quem tem mandado. A casa aqui foi idia dele. A gente andava
solto por a, levando chutes.
18
     - Voc  puxa, t sempre do lado dele, dizendo sim.
     - No sou capacho. Nariz - defendeu-se o garoto. -
Mas ele tem cuca, no se pode negar. O Baixo sabe abrir
quando estamos no aperto. J nos livrou de muita sinuca.
     O de camiseta amarela, mais ligado ao Nariz, tambm
fazia restries ao chefe.
     - Acho que o Baixo foi quente no comeo. Agora, com
a tal de Tereca, j deu umas pisadas na bola. Acho que o
Nariz podia comandar. No digo isso porque ele  o mais
forte, digo porque ele tambm sabe das coisas, conhece a praa
e nunca fez ursada.
      - T comigo, Baden? - perguntou Nariz.
      - Estou com voc pro que der e vier, mas no sei no o
que o Baixo vai dizer. Ele que  o bom de pianos e nunca
aprova quando a . gente faz as coisas da prpria cabea. J estou
ouvindo ele dizer que no foi consultado, que no pensamos
em tudo, que entramos numa furada e o escambau.
      - Ele que diga o que quiser, est feito.
      - Que est feito est - concordou Baden. - Mas ele
vai querer explicaes.
      - O que est feito no precisa ser explicado, j expli-
cou-se.
      O menor ps mais uma lenha na fogueira.
      - A gente no fez tudo, agora vem o depois. Estamos no
comecinho. Se no tivermos ba cabea, entramos em fria. 
a que entra o Baixo. Ele sabe onde pr os ps, pensa duas
vezes, joga sempre certo.                   -
      - Ele era assim, Tito, antes da Tereca, mas dela pra c
anda meio mole e s perde tempo com servicinhos pequenos.
J estava na hora do grupo partir pra coisa importante. O
negcio de correntinhas d mais susto que dinheiro.
      - E se ele no aprovar? - insistiu Tito.        -
      - Ento, que fique por fora .- respondeu Nariz, irritado.
- Mas nunca mais poder dar uma de chefe. E desta jogada
 no receber um tosto.
      Baden pegou o violo e comeou a tocar; tirar uma melo-
 dia acalmava-o. Tocava com os olhos meio fechados, sentindo,
 preocupado com a suavidade. Quando errava uma posio
 mordia os lbios e recomeava. Se acertava, como queria, dei-
 xava escapar um sorriso.
                                                              19
      - Esse violo  o fim, - disse Nariz.        O cabo est at
 torto. Voc precisa desapertar um novo.
      Baden sacudiu a cabea com algo original a dizer.
      - Quer saber duma coisa? Posso roubar tudo, at santo
de igreja, mas violo no roubo. Tem mais graa comprar.
Som no pode ser encucado, de coisa enrustida. Precisa ser
livre, sem grilo.
      Voltou a tocar, o nervosismo ainda no passara. Tito, o
menor, tambm estava assim, mas no tinha com que descar-
regar os nervos. Nariz disfarava, fingindo gostar da msica.
No esquecia, porm, que dera uma cartada perigosa, ainda no
incio, e que ela seria decisiva inclusive para o futuro d grupo.
Se tudo acabasse bem, o grupo cresceria, desta vez sob seu
comando. Certo ou errado fizera um lance do qual provavel-
mente o Baixo no seria capaz.
      Ouviram da porta da rua um rudo espichado, seguido de
trs toques telegrficos. Era o sinal, havia gente chegando.
Tito, antes de abrir a porta, recebeu uma ordem de Nariz.
     - No diga nada, deixe que eu conto.
     Tito abriu a porta: era o Baixo, acompanhado de Tereca
e um louro de pele suja com um gorro verde na cabea, o Alis.
     - Novidades? - perguntou o Baixo.
     - Se tem o Nariz  , quem sabe - disse Tito.




          OS SEQESTRADORES SE RENEM

     Nariz esperava o Baixo no salo, como chamavam a sala
que fora de refeies. Baden continuava no depsito, tocando.
        Como foi o trabalho? - perguntou Nariz.
     Parecia mais alto naquele momento, contrastando com o
Baixo, atarracado, menor, inclusive que Tereca. Esta estava de
jeans e blusa branca, morena ainda mais amorenada pelo sol,
com quem freqentemente fazia par nas praias.
    - O Alis abafou uma correntinha de trs voltas.
    - Ouro mesmo ou 'tapeao?
    - Ouro, conheo o, material da gente. No camos mais
em bijuteria.

20
     - Com duas, trs ou quatro voltas quem ganha  o Velho.
Ele s fica atrs do balco e fatura.  o vivao, o bacana, e
ns os atletas que s sabemos puxar e correr.
     - Tive uma conversa sria com o Velho - disse o Baixo.
- Prometeu ser mais legal. O lucro agora vai ser no racha.
E vocs, o que fizeram? Ficaram ouvindo o Baden tocar violo
e o que mais?
     Nariz olhou para o Tiro e riu.
     - Samos do negcio de correntinhas, Baixo. Estamos
noutra. Vamos explorar uma mina de ouro. Quem sabe d at
pra gente se arrurfiar de vez.
     O Baixo olhou para o Tito, que desviou o olhar. Baden
parou de tocar e apareceu. O chefe achou que havia algo de
estranho nb ar mas no entendeu.
      - Qual  o plano? --perguntou.
      -  mais que plano - disse Nariz. - Conte pra eles,
Baden.
      - Por que no conta voc mesmo?
      Nariz talvez ainda receasse a desaprovao do Baixo, mas
 procurava esconder isso.
      - Temos dois pombos a na despensa. Um casaizinho.
 Parece gente endinheirada, bem vestidinha.
      - Que pombos, que gente? - quis saber o Baixo, intri-
 gado.
      - Comece do comeo - disse Baden a Nariz.
      Nariz acendeu um cigarro torto que estava solto em seu
 bolso.
      - Eu passava perto do Catete quando vi um rapaz e uma
 mocinha que saam do museu. L vai um parzinho cheio da
 grana, disse pra mim mesmo. Eu vinha pra c e os dois tam-
 bm. Ao chegarem aqui eles pararam. Baden e o Tito estavam
 na rua. A .o moo atravessou e foi ao boteco. Pareciam meio
 perdidos. Ento ns entramos e eu propus: vamos pegar a
 garota. E foi o que fizemos, assim num pl.
       - E o rapaz? - perguiitou o Baixo, ansioso.
       - O rapaz voltou, no encontrou a moa e se ps a gritar
 o nome dela. A passou a esmurrar a nossa porta. O que deva-
 mos fazer? Ento a gente conversou, abriu, e dissemos pra ele
 que a moa tinha desmaiado e que uma tia da gente tinha tra-
                                                             21
    zido ela pra dentro. Ele ficou cabreiro, desconfiado, mas
    entrou , e agora esto os dois presos na despensa.
          - Por que fizeram isso? - perguntou Tereca.
          - Ora, por qu! Nunca ouviram falar de seqestro? Es-
    tamos nessa, colegas, e podemos ganhar uma nota.  s fazer
    as coisas direito, trabalhar com categoria.
          A cara do Baixo ara de quem no gostara; no se sabia
    ainda se do plano ou se por terem agido sem consulta. O com-
    binado era outro: quando fizessem um trabalho grande, todos
    teriam de estar de acordo. S pequenos desapertos podiam ser
- feitos por conta prpria, coisas de pegar e correr. Mas logo
    um seqestro duplo, sem papo antes!?
          - Algum viu pegarem os dois?
          - Ningum - garantiu Baden. - E como a rua est
   interditada, no passavam carros.
         - Vocs j conversaram com eles? - perguntou o Baixo.
   - J sabem quem so, se os pais tm grana e onde moram?
         - Ainda no conversamos - disse Nariz. - Isso acon-
   teceu agorinha. A moa estava muito nervosa e resolvi dar
   um tempo.
         Baixo considerou:
         - Quando se faz um seqestro j se sabe tudo sobre o
  cara. Sempre se pega filhos de bacana. No  assim, quem vai
   passando na rua. Ningum seqestra durangos.
         - Fui pelo olho - disse Nariz, j recebendo mal as pon.
   deraes do Baixo. - Pelo jeito que esto vestidos, a famlia
   deles tem dinheiro.
         Baixo riu, irnico, olhando e chamando aateno para seu
 - biazer, elegante e cheio de bolsos, a melhor pea que haviam
   surrupiado duma loja; Nariz s no brigara por ela devido ao
   nmero, pequeno demais para seu corpo.
        - Eu tambm uso um bom pano e sou um pronto - disse
  o Baixo. - Boa roupa s vezes  disfarce.
        - Mas no  s a roupa, eles tm jeito de rico.
        - A moa  bonita? - quis saber Tereca.
             Bonita  pouco, ela  fantstica. -
        O Baixo no se mostrou interessado nessa informao e
  fez outra pergunta, mais prpria para quem decide.
        - O que umdooutro?
 22
     - Apenas sei que n so irmos respondeu Nariz. -
Melhor, assim sero duas famlias a pagar pra ver eles de novo.
     O Baixo pensou, ainda no estava entusiasmado, muito
pelo contrrio. Mas era preciso agir, e depressa, antes que o
Nariz se precipitasse pondo o grupo todo em perigo.
     - Vamos falar com eles         decidiu.
     - Quero ir tambm - pediu Tereca. - Estou duvidando
dessa beleza toda.
     - Vou eu, Nariz e Tereca - disse o Baixo j se movi-
mentando. - Vocs fiquem a.
     - Quero estar nessa - retorquiu Baden.         Eu participei
do trabalho      no era um protesto mas quase chegava l.
     - Muita gente assustaria os dois - explicou o Baixo,
num tom de quem no admitia rplicas. - No  hora de tu-
multuar. Este caso exige calma e muito tino.
      Sem acrescentar mais palavras, o Baixo dirigiu-se  des-
pensa, seguido por Nariz e Tereca. Os outros trs ficaram no
salo, Baden de cara muito feia, esboada somente aps o afas-
tamento do chefe.
      - No gostei de ser posto a escanteio - murmurou.
      - Deixe o Baixo decidir - falou Alis. - Ele tem cabea.
      - Mas ele no esteve no lance. Quem chega depois no
deve piar.
      Alis enterrou ainda mais o gorro na cabea; fora chamado
para o grupo pelo Baixo e era-lhe grato. Se no fosse ele, esta-
ria atrs dos muros ou zanzando sem teto. Quando entrou
naquela casa fazia trs dias que no comia. Estava com ele e
 o que dissesse estava dito.




                   O INTERROGATRIO
      Pat e Cludio estavam sentados no saco de estopa. Ela j
 chorara tudo, mas io estava melhor. Passara o susto, porm.
 ficara o medo, seco e quase sem palavras. Cludio falava mais,
 convencendo-se e querendo convenc-la de que logo seriam sol-
 tos. Esperana somente, no baseada em argumentos. Parara
 de falar quando ouviu passos.. Pat apertou-lhe a mo com seus
                                                               23
  dedos quase gelados. Depois a chave, que fez tanto rudo como
  se fosse arrebentar a fechadura. Por fim, empurrada, a porta
  abriu-se.
        Pat e Cludio olharam atentos para os trs. Reconheceram
 Nariz, o do BEM-VINDOS AO RIO, e estranharam a presena
 duma moa. Quem seria o outro, o mais baixo, com ar srio,
 que os olhava curiosamente? E foi ele o primeiro a falar. Sua
 voz era firme, mas no grosseira.
        - O que vocs so um do outro?
        - Nada - respondeu Cludio.
        - Namorados? - perguntou Tereca.
       - Ns nos conhecemos hoje - disse Cludio. - A no
 museu do Catete.
       - Em que bairro moram? - perguntou o Baixo, conti-
 nuando o interrogatrio. - Por favor, no mintam. Os ende-
 reos.
       - No moramos no Rio - respondeu Cludio. - Eu sou
 de Curitiba, ela de Braslia.
       - Esto aqui a passeio?
       - Eu cheguei ontem e ela h uma semana:
       - Esto morando com parentes?
       - Eu estou num hotel e ela no apartamento duma tia.
       As respostas deixaram o Baixo um tanto inquieto, mas no
 deu tempo para que Nariz fizesse perguntas.
       - Com quem est no hotel?
      - Sozinho.
       Pela primeira vez dirigiu-se a Pat:
      - Onde  esse apartamento?
      - Em Ipanema, sei a rua mas no sei o nmero. Minha
tia foi me buscar no aeroporto.
      - Qual  o nmeto do telefone?
      - O apartamento no tem telefone. Minha tia mudou-se
h pouco para l, ainda no conseguiu um.
      O Baixo enfiou as duas mos nos bolsos da cala; quem o
conhecia sabia que sempre fazia assim quando algum problema
o surpreendia ou quando ficava aborrecido com algum. Tereca
olhou para o Nariz, era o algum daquela situao.
      - H um banheiro a em frente - disse o Baixo aos dois.
- V um por vez. Mas sem tentar fazer besteira, que com-
plica. Tereca, fique com eles. Nariz, vamos conversar no salo.
24
     Baixo e Nariz voltaram ao salo, onde estavam Baden,
Alis e Tito, todos com ar de quem adivinhava as coisas mal
paradas. O chefe continuava com as mos nos bolsos, olhando -
para nenhum lugar.
     - Nisso que d fazer um trabalho sem pensar - disse o
Baixo. - Como vamos pedir resgate se a famlia deles no
mora aqui? O rapaz sozinho num hotel, a moa morando com
a tia num apartamento que nem o nmero sabe e que no tem
telefone.
     - No sao daqui? - perguntou Baden.
      - Ele  de Curitiba, ela de Brasilia.
      Alis riu fino, como quem zombasse de Nariz.
      - Pare de rir! - berrou Nariz. - Vamos pensar e re-
solver.
      Tito disse o que sups que o Baixo diria:
      - Ento o jeito  soltar os pssaros.
      - Para eles dedarm a gente? - retrucou Nariz. - Nun-
ca. Agora que comeamos temos de ir at o fim. Que importa
que no moram aqui? A gente telefona assim mesmo. Vamos
conversar com eles outra vez.
      Tereca voltou ao salo.
      - Ela no  to bonita assim. Pode ser bonitinha, mais
no.
      - Quem tem papel e lpis? - perguntou Nariz.
      - Eu tenho - disse Baden, indo para o depsito.
  - Precisamos saber os nomes dos pais, os endereos e o
resto - resolveu Nariz querendo retomar o comando, enquanto
Baden lhe entregava uma esferogrfica e um bloco para anota-
es. - Algum quer ir comigo? - perguntou no tom de quem
dispensava ajuda ou companhia.
      O Baixo voltou com o Nariz para a despensa enquanto
Tereca dizia novamente aos trs que Pat no era nenhuma
beleza fora do comum. Mas no ficou no saguo, foi atrs
dos dois.
      Desta vez, Cludioe Pat estavam de p quando os trs
entraram. A porta ficara apenas encostada.
      - A gente vai conversar mais - disse Nariz. - Os pais
de vocs so ricos? Responda primeiro voc - ordenou a
Cludio.
                                                          25
     - No - respondeu Cludio. - Moramos num aparta-
mento alugado. O que meu pai tem de algum valor  um
automvel.
     - O que ele faz na vida?
     - Trabalha num jornal, chefe de uma seo.
     O Baixo fez uma pergunta para testar se o rapaz dizia a
verdade ou no.                -
     - Em que hotel est hospedado?
     - Royal, Copacabana.
     O Baixo enrugou a testa farejando uma mentira.
     - Um hotel de luxo. L pobre no assina ficha.
     - Foi um presente de meu irmo, mas s por trs dias.
     Nariz voltou-se para Pat, sempre observada por Tereca,
que j no disfarava sua antipatia.
     - E voc, garota, fale dos seus pais.
    - Meu pai tambm no  rico - respondeu depressa. -
 arquiteto duma empresa. Moramos num pequeno aparta-
mento.
    - Examine a bolsa dela - disse Tereca.




    Nariz pegou a bolsa de Pat e abriu-a. Batom, blush, lenos
de papel e uma pequena carteira.
    - S tem trinta mil - disse.
    Antes que lhe pedissem, Cludio tirou sua carteira do
bolso. Nariz contou o dinheiro.
26
       - Que porcaria! - exclamou Tereca. - Quarenta mil!
       Pouco ou muito, Nariz enfiou no bolso o dinheiro dos dois.
       - Vamos agora aos endereos, nomes dos pais e telefones
- ordenou.
       - Meus pais no esto em Braslia - disse Pai. - Como
eu vinha para o Rio aproveitaram para passar a semana em
Planaltina, na casa dum amigo, mas no sei o endereo.
       O Baixo fazia uma cara feia, especial, sempre que surgia
um furo no plano de Nariz. Mais dificuldades.
       - No v dizer que seus pais tambm no esto em Curi-
tiba - disse Nariz um tom feroz, dirigindo-se a Cludio.
       - Eles esto - respondeu o rapaz. - Mas se pensam
em resgate acho que..
      - No interessa o que voc acha. Agora, os nomes e
  endereos. Tereca, tome nota.
       Enquanto Tereca anotava, o Baixo perguntou:
       - Esto com fome?
       - Estou com sede - disse Cludio. - Ela tambm deve
  estar.
       - Traremos sanduches e refrigerantes. Algum fuma?
       - No - respondeu Cludio. - Mas me deixem dizer
  uma coisa. Nossos pais no esto em condies de pagar resgate.
       - Os pais sempre do um jeito de pagar - replicou Nariz.
  - E no vamos pedir bilhes. A vida de vocs deve valer
  cem milhes cada uma, no acham? Ou no vale? Se no
  vale, eles odeiam vocs.
        - Meu pai j operou o corao, tem uma vlvula, ele no
  pode levar susto - disse Pai, suplicante.
        - Quem est vivo est sempre levando susto - senten-
  ciou Nariz. - Pior susto levar se no arranjar os cem milhes.
  Espero que no seja bobo nem miservel. Agora vamos.
        Os trs saram; a chave ficou com Tereca, incumbida de
  abrir a porta quando fosse necessrio.
        Assim que chegaram ao salo, o Baixo disse a Tito:
        - V comprar quatro refrigerantes e quatro sanduches.
  Nariz, o dinheiro.
        Nariz, com m vontade, deu a Tito parte do dinheiro que
  tirara dos prisioneiros. Sentia-se mais seguro agora aps a
  segunda entrevista. No sabia com certeza o que faria, mas no
  abandonaria o comando.
                                                              27
      - Voc fez uma grande besteira - disse o Baixo sem
levantar muito a voz.
     - Por qu? Acha pouco duzentos milhes? Podemos
pedir mais.
     - A famlia deles no  rica.
     - Podem estar mentindo - replicou Nariz querendo en-
cerrar o assunto.
     - Se estivessem mentindo no trariam to pouco dinheiro.
     - A pulseira e os brincos dela so bijuteria - disse Te-
reca. - J usei coisa melhor.
     Nariz no quis demonstrar que essas ponderaes o aba-
lavam.
     - Para salvar um filho qualquer pessoa arranja dinheiro.
s vezes todo mundo colabora. Assim como quando h uma
criana doente que precisa ser operada no exterior. O dinheiro
aparece.
     O Baixo tirou as mos dos bolsos, cresceu.
     - Resgate s funciona quando h uma conversa , entre os
seqestradores e a famlia. Se  negcio de todos, a policia
fica sabendo e entra areia. Seu mal, Nariz,  no ler jornais.
Quando a coisa vira notcia, d torcida, e os seqestradores
sempre acabam se azarando.
     O Alis, lendo entendido ou no, ficou com o Baixo.
     - Ele tem razo, Nariz.
     - Guarde sua opinio, voc de gorro! - berrou Nariz.
     O desabafo de Nariz no foi suficiente. Ficou sem saber
o que dizer, a segurar o bloco. Evitava olhar o Baixo de frente.
Talvez tivesse entrado numa gelada. No quis, porm, rco-
nhecer isso.
     - A gente vai dar um jeito.
     - Que jeito? - perguntou o Baixo para sinuc-lo ainda
mais.
     - Conversando vamos descobrir - era uma confisso de
que no sabia agir e muito menos pensar sem que o Baixo esti-
vesse por perto.
     Ficaram todos calados, o Baixo espichando o silncio para
castigar Nariz. Tito voltou com os refrigerantes e os sandu-
ches. A um sinal do namorado, Tereca foi abrir a porta. A
curiosidade que sentia por Pat ainda no fora toda consumida.
28
                 OS PSSAROS REZAM

      Pat voltara a chorar quando Tereca e Tito entraram. As
garrafas j estavam abertas. Ao ver os sanduches, os prisio-
neiros descobriram que estavam com fome.
      - Aproveitem - disse Tereca. - Por hoje vai ser s isso.
      Pat, enxugando as lgrimas com um leno de papel, per-
guntou:
      - Vocs no vo nos soltar? J est anoitecendo e minha
tia deve estar preocupada.
      - Ainda nada ficou decidido - respondeu Tereca.
      Cludio fez uma promessa:
      - Diga a eles que, se nos soltarem, no diremos nada a
ningum. Tenho de voltar a Curiliba amanh e Pat volta para
Brasilia. No iremos dar queixa  polcia, nem h tempo
pra isso.
      - Se dependesse do Baixo - disse Tito - acho que sol-
tava vocs. Mas quem est mandando nesse caso  o Nariz.
Sabem qual , no? O mais alto.
      Pat tinha um argumento, que j com os olhos secos pde
expor:
      - Se eu no aparecer at a noite, minha tia avisar a
polcia. E isso pode piorar tudo para vocs.
       Tereca, com um sorriso de lbios cerrados, zombou de Pat.
       - Procurados, ns sempre estamos. Pra ns no ser no-
vidade. Muitos que vivem aqui passaram quase toda a vida nos
institutos. Eu mesma estive numa dessas coisas durante trs
 anos. Foi l que conheci o Baixo.
       - Mas se for presa por seqestro ser pior - disse
 Cludio.
       - A est enganado, garoto. Tenho s dezessete, sou
 menor. Se for presa, seja qual for o motivo, no mudar muito.
 E, mais cedo ou mais tarde, a gente acaba fugindo. Sabem
 quantas vezes Nariz fugiu? Onze. Mas ele sim agora se ferra-
 ria. Vai fazer dezoito por estes dias.  o mais velho do grupo
 - finalizou Tereca; porm, antes de sair, acrescentou: - L
 pelas dez abro a porta outra vez para vocs irem ao banheiro.
       Bastou um sanduche para que passasse a fome de Pat e
 de Cludio. Estava quase totalmente escuro; a nica luz vinha
 do alto, a do luar, penetrando por um buraco do teto.
                                                              29
     - Menti um pouco pra eles - disse Pat. - Papai tem
bastante dinheiro, sim, embora no seja rico.
     - Voc fez bem em dizer o que disse, quem sabe desistam.
     - Um deles me pareceu bem melhor que os outros, o
tal Baixo.
     - Tambm achei, tem uma cara mais limpa. Minha espe-
rana est nele.
     Pat afligiu-se outra vez.
     - Estou pensando em tia Elisa, eu disse que voltava 
tardinha e j  noite. Ela deve estar morrendo de preocupao.
     - Acho que minha me telefonar para o hotel e no me
encontrar - disse Cludio. - Nem, sei que atitude ela e o
pai vo tomar.
     - Vou rezar - anunciou Pat. - Rezar para que nos
soltem ainda esta noite. Voc costuma rezar?
     - No - respondeu Cludio. . - Mas eu tambm vou.
S Deus pode nos ajudar agora.




          QUEM  QUE MANDA NA TOCA?

     Quando Tereca e Tito voltaram ao salo, Nariz e Baixo
discutiam  luz de duas velas. Alm de Alis e Baden havia
mais outro, pequeno como Tito, que comia um pedao de
melancia, um tanto alheio  discusso.
     - Estive pensando - dizia o Baixo. - Se um seqestro
j  barra, imaginem dois. Teremos de nos entender com os
pais de um e com os pais de outro. Falta-nos infra pra isso.
E como no temos o endereo da garota, a coisa vai estourar
na policia.
     - J pensei nessas coisas - respondia Nariz. - No 
s voc que sabe usar a cuca. Mas  tarde pra voltar atrs.
Vamos deixar o caso rolar. Logo a famlia deles chega e a a
gente entra em contato. E vocs vo ver que ser tudo numa
boa.
     O Baixo continuava no concordando.
     - O que comea errado no acaba numa boa. D o
telefone. Vou ligar para Curitiba.
30
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             Nariz e Baixo discutiam  luz de duas velas:
    - 0 que comea errado no acaba numa boa - concluiu Baixo.
     - O que vai dizer?
     - Direi aos pais deles que venham com muita grana, e
que se instalem no hotel em que o filho estava. Pedirei tambm
para no avisarem a polcia. Vamos, Tereca.
     Apesar da m iluminao, Nariz percebeu que todos olha-
vam para ele. Estava perdendo o comando outra vez? Le-
vantou-se.                                                 -
     -- Vou junto - disse.



            TIA [LISA COMEA A SE MEXER
     Elisa, tia de Pat, comeou a afligir-se a partir das seis
da tarde. s sete foi para a porta do edifcio esperar a sobri-
nha. J ensaiava as palavras speras que lhe diria quando
voltasse. Tlvez a mandasse , de volta para Braslia no dia se-
guinte. Mas s oito j no acreditava que ela tardasse por
vontade prpria. Pensou nos problemas de trnsito, na possi-
bilidade dela ter se perdido, por no conhecer a cidade, e depois
num desastre. Aconteciam no Rio dezenas de atropelamentos
por dia. Uma vizinha de andar aconselhou-a a ir  delegacia,
no era longe. Se Pat chegasse enquanto isso, telefonaria para
a delegacia avisando. No entanto, passava das nove quando
Elisa decidiu apelar para a polcia.
     - Se tem uma foto dela, leve - disse-lhe a vizinha.
     Elisa possua algumas fotos de Pat; colocou-as na bolsa.
     - Estou nervosa - murmurou antes de ir  delegacia.
     - J falei com meu marido - disse a vizinha. - Ele vai
com a senhora. Quer tomar um calmante?
     - No, sei que no vai adiantar.


                                        ri
               MEIA-NOITE EM CURITIBA
     Em Curitiba, os pais de Cludio foram ao cinema e depois
a um restaurante. A me telefonara no fim da tarde, mas o
filho no estava no hotel.                     -
     -- Telefono depois do cinema - decidiu.
32
     - Bobagem replicou o marido. - Amanh ele j est
aqui. Fechar a conta antes do meio-dia para no pagar outra
diria. Telefone amanh cedo para saber a que horas ele chega.
     - E se ele ligar?
         A empregada atende.
     - Clarice foi visitar a famlia, s volta amanh.
     - Se ele ligar vai entender que ns samos.
     Ao voltarem do restaurante, j no corredor do andar, a
me de. Cludio teve a impresso de . ter ouvido o telefone.
Abriram a porta do apartamento s pressas; o telefone estava
mudo.
         Acho que a chamada foi -no: outro apartamento. Clu-
dio no telefonaria to tarde -'--- considerou o marido.
     - Meia-noite! - exclamou ela, olhando o relgio. - A
esta hora ele deve estar no segundo sono. Ser que est fazendo
muito calor no Rio?




              O CASO CHEGA  POLICIA
     O marido da vizinha de dona Elisa telefonava de quinze
em quinze minutos para o apartamento, e sua mulher sempre
informava que Pat ainda no havia chegado. -Disse, inclusive,
que deixara a porta de seu apartameito aberta para v-Ia passar,
caso chegasse.
     A delegacia estava muito movimentada e por isso no foi
fcil entrarem na sala do delegado. Era um homem de meia-
-idade, quase totalmente calvo. Parecia cansado do trabalho
da noite. Antes de atendef a dona Elisa e seu acompanhante
tomou meio copo dum lquido.
     - Este  um emprego que d lcera - disse. - Mas.
vamos l, qual  o caso?
     - Minha sobrinha, que chegou esta semana de Brasilia,
saiu cedo de casa para voltar s seis e ainda no voltou.
     - Provavelmente se perdeu. Conhecia a cidade?
     - No conhecia, mas  uma garota de quinze anos, muito
esperta, e levava dinheiro para txi.
     - Ela tem vcios?
                                                             33
      - No, claro que no.
      - Vamos preencher uma ficha. A primeira coisa a fazer
 descobrirmos se sofreu um acidente. Sabe onde ela foi?
      - Lembro-me ter dito que ia ao Palcio do Catete.
     - Podemos comear pelos pronto-socorros e hospitais da
regio. Mas isso demora um pouco.
     - A gente pode ficar na sala de espera?
     - Claro, mas se cansarem deixem o telefone para onde
podemos ligar quando a encontrarmos.
     Preenchida a ficha, Elisa e o marido da vizinha foram para
a sala de espera, que ele abandonava de quando em quando
para telefonar ao seu apartamento. Umas duas horas depois o
delegado mandou cham-los.
     - Ainda no conseguimos localizar a mocinha. Vamos
continuar procurando nos hospitais. Se ela aparecer, por favor,
avisem-nos imediatamente.
     - E se ela no aparecer em casa e nem for encontrada
nos hospitais? - perguntou Elisa.
     - J tentou telefonar para Braslia, onde moram os pais?
     - Ela estava muito feliz aqui, no, tinha nenhum motivo
para voltar.
     - Bem, voltem amanh cedo. Vou deixar o caso bem
explicado ao delegado do perodo da manh. Se no tivermos
notcias dela, ento talvez se trate de caso de seqestro. Mas
no se desespere, minha senhora. Ouem sabe aparea ainda
esta noite.



               ANTES DO DIA SEGUINTE
     O Baixo telefonara para Curitiba da prpria Telerj. No
foi s um chamado, foram vrios, intervalads.
     - Vamos voltar para a Toca - disse.                    -
     -- Onde ser que se meteram os pais dele? - aborre-
ceu-se Nariz.
     - Voltaremos a telefonar amanh. Parece que h ore-
lhes que fazem ligaes at para o exterior.  melhor no
dar as caras duas vezes no mesmo lugar. Outra coisa, acho que
o grupo devia se manter bem comportadinho enquanto isso no
34
terminar. Voc sabe, a pivetada se abre em copas e conta tudo
quando a polcia pega.
      - Verdade - concordou Tereca. - Para escapar de uma,
eles sempre contam todas. Principalmente os bebezes e os
retrs.
      - Mas estamos com a caixa baixa - lembrou Nariz. -
S mercadoria e mais nada.
      - Ento precisamos vender, o Velho me prometeu pagar
bem o ouro desta vez.
      - Esses tipos do mtier sempre dizem o mesmo. Uns
vivaos. Quem depende deles se ferra. Por isso que eu quis
 pisar mais longe. Se tudo der certo com os dois, e a gente
 receber os duzentos, esses exploradores nunca mais me vero.
      - Prestem ateno! - disse o Baixo. No devemos
 mais entrar na Toca com aquela folga toda. Depois desse lance,
 tudo precisa ser no cuidado. Entra um por vez e com naturali-
 dade. Nada de deixar os vizinhos cabreiros. Sempre  bom
 dar uma olhada aqui da esquina. Agora v voc, Tereca, e
 deixe a porta aberta. Junto  parede, como quem no quer
 tomar chuva.
       Depois que Tereca partiu. Nariz disse ao Baixo:
       - Vamos fumar?
       - No - respondeu o Baixo. Essa que voc arrumou
 no  moleza. A gente precisa de cabea fria, estudar os tintins.
 Fumaa no tira ningum do aperto, e eu no quero voltar pros
 muros. Vai ficar?
       - Eu fico - decidiu Nariz para mostrar que no se
  impressionava com as falas do Baixo, e acendeu o cigarro. Mas
  no havia iluso que lhe tirasse a  angstia da espera do dia
  seguinte.



        O RETRATO DE PAT, UMA ESPERANA
      No dia seguinte, Elisa bem cedo foi .delegacia, agora com
 a vizinha, que se chamava Nair, e no com o marido, que fora
 ao trabalho. O delegado que as atendeu era mais moo que o
 outro e mais eltrico. J sabia do que se tratava e tinha infor-
 maes.
                                                                35
      - A menina no est internada em nenhum hospital ou
 pronto-socorro. Tambm no est em necrotrio. Trs moci-
 nhas foram atropeladas ontem, mas j foram identificadas. Re-
 ceberam algum telefonema de Braslia?
      - Minha irm, a me de Patrcia, e meu cunhado foram
 para Pjanaltina, perto de Braslia. No tenho o telefone da
 casa onde esto hospedados. Nem pensei em ligar, para no
 assust-los.
      - Mandei tirar cpias do retrato que a senhora deixou
 aqui ontem. Dezenas de investigadores j esto com ele no
 bolso. A procura vai comear pelo Catete, onde ela esteve
ontem. Mas a grande ajuda pode vir da imprensa. A foto foi
distribuda tambm a diversos jornalistas que estiveram aqui.
H um programa de televiso que d uma grande colher de ch
nesses casos. Quer que a coloquemos em contato com o pro-
dutor?
     - Fao o que o senhor sugerir.
     Um homem jovem, de olhares espertos, aproximou-se.
     - A senhora  a tia da moa?
     - Esse  o investigador Walmor, est encarregado do
caso. Ele poder lev-la  televiso - disse o delegado.
     - Passarei no seu apartamento s duas - disse Walmor.
- Agora estou indo para o Catete.
     - Esperarei pelo senhor.




              NINGUM ATENDE NO 322
    s dez da manh, Celina, me de Cludio, telefonou para
o hotel Royal, onde seu filho se hospedara. Ningum atendia
em seu apartamento. Tornou a ligar, para a portaria, para
saber se Cludio Menezes j deixara o hotel. Responderam-lhe
que no, ainda no fechara a conta. Sua chave, 322, estava l,
devia ter sado cedo. Dona Celina pediu, ento, que pusessem
um recado no seu casulo: "Cludio, telefone para sua me".
Seu marido, Walter, tomava caf na cozinha.
36
    - Cludio no est no hotel.
    - Ele quer aproveitar suas ltimas bons de Rio.
    - Acha que  isso?
    - No pode ser outra coisa.
    Celina no precisou ouvir mais nada para acalmar-se.




                 O RDIO COLABORA
     No salo da Toca, quase todos sentados no cho, o grupo
se reunira para deliberaes. Estavam l o Baixo, Nariz, Te-
reca, Baden, Tito, Alis, o rapaz que no dia anterior aparecera
mais tarde, o Pequins, e outro, gordo, que acabara de chegar
e ainda no sabia de nada, pois preferia dormir no barraco
dos pais.
     O Baixo tomou a palavra com a cara muito sria.
        Ontem a gente telefonou para Curitiba, mas os pais do
rapaz no estavam. Por isso ainda temos tempo para pensar.
O que acham? Devemos continuar com a coisa ou soltar os
dois? Vamos pensar com calma.
     - Pensar no qu? - protestou Nariz. - No estava deci-
dido ontem?
     - Estava, mas hoje  outro dia.
     - Vamos tomar a telefonar e pedir o resgate - disse
Nariz, querendo ao depressa. - Agora, quem est com medo
que espirre.
     O gordo saltou de p; sua pergunta tinha mola:
     - Do que esto falando?
     - De seqestro, Sebo - respondeu Baden.
     - Vocs esto pensando em seqestrar algum? Isso?
     - Pensando no - explicou Baden, que era muito posi-
tivo quando estava sem o violo. - Temos dois pssaros l
na despensa.
     - Logo dois?
     - Um rapaz e uma uva de garota.
     Sebo lanou um olhar em crculo, para todos.           -
     -- No  essa moa que o rdio est falando?
                                                             37
       A surpresa apanhou todos ao mesmo tempo, mas foi o
Baixo quem falou.
          O que voc ouviu no rdio?
       - Que desapareceu uma menina de quinze anos.
       - Disseram o nome dela?
       - Se disseram no lembro. S lembro que ela  de Bra-
slia.
       Baden gritou:
       -  a nossa! O que o rdio disse mais?
       - O que disse? Que a polcia est procurando. S.
       Nariz foi ao depsito e voltou com dois rdios. Entregou
um a Baden.
       - Cada um numa estao.
       - Eu sei qual tem um radiojornal agora.




         SURGE UMA PISTA VAGA: O MUSEU
     O investigador Walmor estava no Catete. J sabia que
havia funcionrios do museu que ciceroneavam turistas e visi-
tantes pelas suas dependncias. Procurou saber quem fizera
esse servio no dia anterior, perodo da tarde. No teve difi-
culdade em localiz-lo, apenas esperou que terminasse de mos-
trar o palcio a um pequeno grupo de estudantes.
     - Bom dia! - disse. - Sou da policia. Estou tentando
localizar uma mocinha que parece ler estado aqui ontem  tarde
para visitar o museu. Entre centenas de visitantes sei que ser
difcil se lembrar dela. Mas aqui estou para tentar.
     - Sou timo fisionomista - garantiu o funcionrio do
museu. - Tem algum retrato dela?
     O investigador retirou do bolso um retrato de bom tama-
nho e bastante ntido para identificaes.
     - Veja devagar. No diga depressa se viu ou no.
     O funcionrio sorriu.
     - Eu no disse que era timo fisionomista? Esta garota
esteve aqui, sim. Muito bonita. No me esqueceria dela facil-
mente. E tornei a v-Ia depois de mostrar o Catete ao grupo.
38
Eu fui  porta da entrada para fumar um cigarro. Ela estava
l, conversando com um rapazinho.
     - Esse rapaz teria vindo aqui com ela?
     - No, ele se reuniu ao grupo um pouco depois. Jovem
tambm, pouco mais velho que ela. Estou certo de que no
se conheciam, a julgar pela maneira como se olhavam.
     - Ficaram muito tempo  porta?
     - No, logo atravessaram a rua, conversando. Mas o
que aconteceu com ela?
      - Apenas sabemos que desapareceu. Podia reconhecer o
rapaz com a mesma facilidade?
      - Creio que no, mas diante duma foto  possvel.
      - Vou lhe deixar meu telefone - disse Walmor entre-
gando um carto ao funcionrio. - Se lembrar de mais alguma
coisa, ligue. Talvez ainda volte a procur-lo.
      - Estou a seu dispor. Meu nome  Figueira.




    O PRIMEIRO SUSTO DEPOIS DO SARAMPO
     Celina voltou a ligar para o hotel Royal. Walter estava
a seu lado, j no to tranqilo como da outra vez.
     - Queria falar com Cludio Menezes, no 322.
     Chamado dum lado, respirao nervosa de outro.
     A voz da telefonista:
     - Ningum atende.
     - Portaria, por favor.
     Portaria:
     - Hotel Royal s ordens.
     - Aqui  de Curitiba. Queria saber se meu filho Cludio
Menezes est no hotel.
     - Ah, o rapazinho! Ele no voltou. A chave est aqui.
     - Mas no  possvel!
     - Ele no teria ido visitai algum?
     - Cludio no conhece ningum no Rio.
     - Um momento, vou fazer urna pergunta  camareira do
andar.
      Celina apertou a mo do marido.
                                                          39
      - Onde estaria esse menino?
     - O que disseram?
     - Vo falar com a camareira do andar.
         Calma, no pode ser nada de ruim.
     Houve um terrvel -minuto de espera. Depois, novamente
a voz do-homem da portaria:
     - Pronto.
     - Sim, pode falar.
     - A camareira informou que ele no deve ter passado a
noite no hotel. Sua cama sequer foi desarrumada. Tem certeza
que ele no possui conhecidos- na cidade?
     - No possui. O senhor deve ter meu telefone. Verifique.
     - Temos, sim, na ficha de entrada.
     - Pelo amor de Deus, mande ele ligr assim que chegar.
     Celinat .desiigou; plida, abraou seu marido, sem -palas?ras.
     - Vou ao jornal - disse ele. - L h todos os jornais
do Rio,. Se houve, alguma coisa, saberei. Telefone assim que
tiver, notcia. Mas nada de desespero. Isso  apenas um susto.
O primeiro que ele nos. d, desde que apanhou sarampo.




                     UM. RUE- DESERTA
     -Cludio --e Pat estavam com- os :ouvidos-pregados  porta.
          Ouve algizm.coisa? - ela-perguntou.
     - Falatrio, mas quase no percebo as. palavras. Esta
porta ---muito grossa. -
     - O que ser que vo fazer?
     - Como podemos adivinhar.
          Se a gente pudesse fugir!
     -- J pensei nisso       disse Cludio, - Mas no acho
possvel.
     - A nica sada seria pelo teto, atravs daquele buraco.
     -  alto demais, Pat. E no h nenhum mvel pelo qual
se pudesse subir. Pat forou mais o ouvido de encontro  porta.
     - Pararam de falar.
     Gudio tambm tentou ouvir.
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     - Devem ter decidido alguma coisa. Quem sabe nossa
libertao. Se tiverem um pouco de juzo faro isso.
         -Pobre tia Elisa! Como deve estar sofrendo! Ser que
ela j se comunicou com a polcia?
     - Penso que sim, mas .a polcia no .tem bola de cristal.
Que pista seguiria?
     - Minha tia sabia que eu ia ao museu.
     - Isso  pouco demais para ajudar Se -no nos soltarem,
no vejo como podero nos encontrar

     O radiojornal, entre muitas- notcias. polticas e policiais,
noticiou o desaparecimento -de Pat. .Baden aumentou o volume.
O noticiarista referiu-se  visita que: ela fizera ao Catete. Preo-
cupou a todo, imaginar a policia comeando .a procurar ali
 por perto.
      Nariz sentiu que o momento era seu; -se -se acovardasse
 teriam de soltar os pssaros, e ele no seria mais ningum no
 grupo. O primeiro, a pisar nele seria o Laixo.
      - Isso j era esperado - disse. - Mas no impede que
 a gente consiga o resgate sem a policia esteja na parada.
 No  muito dinheiro, faro o .que pedimos. Acha que vo
 arriscar a vida dessas belezinhas por to pouco? Vamos tele-
 fonar. Quem vai -contigo?
 - O - Baixo .kvantuse. Aquilo cmeara emaranhado e
 ficaria pior ainda 'se deixassem -para o Nariz resolver. Ele: s
'sabia assaltar ,e -fugir dos reformatrios. - Sua cabea era uma.
 lstima.
      Tereca seguiu com os dois. -como na noite anterior. Baden
 foi para o depsito. tocar violo .com Tito e Alis. Pequins
 foi para .a despensa, no para abrir -a porta, mas para ouvir.
 Sebo estava assustado ou muito mais .que isso. As coisas
 haviam melhorado no barraco depois que seu pai deixara de
 beber. J no batia na me e no .lhe tirava todo o dinheiro,
  se engraxasse. Ia para .a Toca mais para ver os amigos, prin-
  cipalmente -o Baixo, que era legal, boa cabea, e at sabia
  direito onde iam os ss. Mas quando o convocavam para um
  servio, tremia. Sua coragem no chegava s pernas. Devido
   sua gordura, era muito lento, j fora apanhado duas vezes.
  Numa o Baixo o ajudara a fugir; noutra, o pai aparecera e
                                                                41
tudo bem. No ia meter-se em seqestro, no. O que vira por
trs dos muros chegava. A sua era uma famlia de duros, seria
mais um, mas em liberdade e sem correrias. Ia pular fora
enquanto era tempo. Foi at o depsito.
     - Pessoal, vou at ali e j volto.
     - Vai onde?
     -  padaria. Vocs sabem que sou doente por pes
frescos.
     Atravessou o corredor, abriu o porto e seguiu bem
depressa pela calada. Iam dizer que ele desertou. No faria
mal. No voltaria mais quela casa; virara a pgina. S ao
entrar num nibus  que respirou. Aquela notcia de rdio e
o fato de os dois seqestrados estarem ali na Toca mudara
sua cabea e sua vida. Capaz at que passasse a gostar de
engraxar. Se no, faria fora.




     UM DOS SEQOESTRADORES AO TELEFONE
     O telefone tocou, Celina atendeu.
     -  voc, Cludio?
     -  a me de Cludio que est falando?
     - .




42
        Aqui fala do Rio.
     -  do hotel?
     - No, minha senhora. Ns seqestramos seu filho.
     - O qu?
     - Ns seqestramos seu filho.
     - Quem est falando?
     - Preste ateno, por favor. Seqestramos seu filho e
uma mocinha chamada Patrcia. Diga a seu marido para vir
ao Rio e hospedar-se no mesmo hotel onde Cludio estava
hospedado. Ns entraremos em contato com ele l. Como 
o nome dele?
     - Walter.
     - Ele que leve dinheiro. Nada menos de cem milhes.
Outra coisa: esquea a polcia. No devolveremos seu filho
antes de termos recebido o dinheiro com segurana. Amanh
telefonamos para o Royal.
     - Mas ele est bem...?
     Desligaram.




     UM ROSTO AFLITO NO VDEO: TIA ELISA
    Elisa e o investigador Waimor estavam sentados num div
do palco-estdio de uma emissora de televiso  espera de que
o apresentador do programa e as cmeras se aproximassem.
Programa transmitido para todo o Pas, certamente seria visto
pelos pais de Pat; e, mesmo que no assistissem, acabariam
tendo conhecimento. Elisa pensava no choque que sofreriam,
mas no havia meio de amenizar a notcia. Primeiramente foi
focalizado o retrato de Patrcia enquanto o animador pergun-
tava: "Vocs viram esta garota?". E comunicava seus dados
pessoais, que Elisa havia fornecido  produo do programa.
     Depois comeou a entrevista com a tia de Pat, logo inter-
rompida pelas lgrimas. Porm ela reagiu e disse tudo que
poderia servir para a identificao da sobrinha. E concluiu
com um apelo: qualquer informao, que ligassem  polcia ou
 sua vizinha, nmero de telefone que repetiu pausadamente.
                                                            43
     - Em seguida o apresentador passou a palavra ao investiga-
  dor Walmor.
       - Patrcia tinha feito uma visita ao museu do antigo Pa-
 lcio do Catete. Um funcionrio lembrou-se dela. Durante essa
 visita conheceu um rapaz, com quem ficou conversando na
 porta. Depois, ambos se afastaram. Gostaramos que esse
 rapaz se apresentasse imediatamente  polcia. Se no o fizer
 podemos concluir que ele a seqestrou. Ou a matou.
       sada da emissora o investigador disse a Elisa:
      - Este programa  quente para encontrar pessoas desa-
 parecidas, mas todas as emissoras de TV j esto recebendo
 cpias do retrato com os dados de Patrcia. Pode contar, logo
 teremos informaes. Agora vou lev-la para o apartamento de
 sua vizinha. Talvez os seqestradores telefonem para l. Se
 telefonarem, preste muita ateno no que disserem, tome nota
 e depois ligue para a gente. Ns apareceremos para dar orien-
 tao.




           O BAIXO RETOMA O COMANDO
      Depois de terem telefonado para Curitiba. Baixo, Tereca
e Nariz passaram por uma banca de jornais antes de voltarem
 Toca. Compraram trs jornais, mas no os leram na rua,
a no ser a chamada de primeira pgina de um deles: MOA
DE BRASLIA DESAPARECE NO RIO.
      Na Toca, Baden foi logo informando:
     - O Sebo desapareceu. Disse que voltava j e pinicou.
     - A gente conversa j - disse o Baixo. - Vamos ler
os jornais.
     Espalharam os jornais pelo cho. Os trs traziam notcias
do desaparecimento da menina, e o mais importante deles, com
um grande retrato de Pat. Vendo a coisa impressa, e com
aquele destaque, todos demonstraram preocupao, menos
Nariz, que leu as notcias sorrindo. O Baixo j praticara algu-
ma ao que merecera tanto barulho? No.
     - Vejam que zueira esto fazendo!
     - Aposto que a televiso j est dando - sups Alis.
44
     - E logo vem a outra bomba se os pais do garoto abri-
rem o bico - acrescentou Baden.
     - Mas como  que vai ser? - perguntou Tereca. - A
tia da garota no tem telefone. Como  que iremos entrar em
contato com ela? Nem por carta vai dar porque essa bobona
no sabe o nmero do edifcio.
     Tereca abordara um problema difcil. Nariz abriu a boca
para responder, mas ficou s nisso. Olhou para o Baixo, pe-
dindo socorro, e este sorriu, como se dissesse: "Se voc pensa
que  o chefe, porque no responde?" Mas no era s o
Nariz, todos olhavam para ele.
     - Logo a polcia vai ligar um caso ao outro. Certamente
foram vistos juntos no museu. Por isso vamos tratar do seqes-
tro como se fosse um s. Assim que os pais do rapaz chegarem
ao hotel, abriremos o jogo. Pediremos cem por cabea, e ele
entrar em contato com os pais da menina, que devem estar
estourando por a.
      - Mas a polcia ficar sabendo dos dois - disse Baden.
      - Que fique sabendo no faz mal - respondeu o Baixo.
- O que no queremos  que ela aparea, na moita, no mo-
mento do resgate. Isso que devemos evitar.
      - Ela sempre aparece - murmurou Baden, nervoso.
      - Neste caso talvez no. Lembrem que temos dois pssa-
 ros nas mos. Pelos duzentos entregaremos um s, a moa.
 O rapaz a gente solta j em segurana. Entenderam a jogada?
      Nariz apontou um dedo comprido na direo do Baixo.
      - Tem um furo a.
      - Que furo?
      - A moa, assim que estiver livre, conta onde  a Toca
 e os tiras correm pra c.
      Todos deram razo ao Nariz, era um furo, mas o Baixo
 permaneceu impassvel.
      - Ningum nos encontrar aqui. Vamos esperar o resul-
 tado do encontro, com o rapaz, noutro lugar.
      - Onde?
      - Dentro dum carro, estacionado perto dum dos morros.
      - Que carro? - quis saber Tito.
      - Quando chegar a ocasio, na vspera ou no dia, arran-
 jaremos um. Esse no  o problema.
      - Acho que est tudo bem pensadinho - disse Tereca.
                                                            45
 - Algum aponta outro furo?
      Nariz no quis dar o brao a torcer. Ainda ia estudar,
 revirar Q assunto. Lembrou a informao do Baden.
      - O que aconteceu com o Sebo?
      - Sumiu - disse o violonista.
      - Vocs brigaram?
      - No, ele disse que ia at a padaria e no voltou. Ser
que no vai abrir o bico por , a?
      - Ele no  de abrir o bico - disse o Baixo. - Apenas
no quis entrar nessa. Tem o direito.
      Nariz estava mais preocupado que o Baixo.
      - Pode no ser de xaveco, mas  um que no agenta
prensa. Com uns cascudos, ele d o servio todo. No seria
bom mandar algum l para dar um toque?
      - Sabem onde ele mora?
     - Eu sei - respondeu Alis. - No morro, com os
velhos dele.
     - V amanh - disse o Baixo. - Mas no faa amea-
as, fale mansinho. O importante  que fique plantado. Nem
pea pra ele voltar. Se o bom pra ele  no participar, que
continue na sua.
     Agora, sim, havia um plano, o grupo tomava direo.
Mais alvio. Nariz, porm, ficou emburrado num canto. Ape-
sar de ter tido a idia e feito o seqestro, o consultado era o
Baixo. S faltava ser prejudicado na hora da diviso. Cuida-
ria disso.
     - Como esto os pssaros? - perguntou o Baixo.
     - Hoje nem comeram - disse Tito.
     - V comprar sanduches e refrigerantes - disse o Baixo
lhe dando dinheiro. - Depressa, devem estar com uma baita
fome. Ah, traga doces e frutas.



     UMA CONVERSA AMIGVEL COM OS PSSAROS
    Pat e Cludio j nem falavam do seqestro; s lhes restava
esperar. Mas no se mantinham calados. At que conversaram
muito. Pat falou de Braslia, que era uma coisa de louco, toda
moderna, uma cidade doutro planeta; falou do colgio, que
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gostava de estudar e pretendia formar-se em Comunicaes.
Comentou tambm sobre seus pais, chamavam-se Ana e Rog-
rio, dois camarades, abertos para os conflitos da juventude,
gente sem grilos, j pronta para o sculo XXI. Cludio revelou
um problema: ainda no sabia o que ia ser, no escolhera a
profisso. Havia tantos advogados, engenheiros e mdicos! Ser
mais um? Enquanto no descobrisse sua vocao ganhava
tempo lendo, hbito que adquirira de seu pai, um grande leitor.
No existia melhor entretenimento.         -
     A porta abriu-se: entraram o Baixo e a Tereca. Ela trazia
sanduches, frutas, doces e refrigerantes.
     - Minha tia j sabe de tudo? - perguntou Pat.
     - Seu retrato est nos jornais - disse Tereca.
     Cludio estava to aflito quanto Pai:
     - E meus pais, j sabem?
     - Falamos com sua me - respondeu o Baixo. - Devem
estar a caminho. Quando todos chegarem iniciaremos as nego-
ciaes. Se agirem depressa, sem fazer burrada, vocs sero
libertados logo. Depende mais deles do que de ns. Vamos.
comam.
      Pat e Cludio comearam a comer os sanduches sob os
olhares da Tereca e do Baixo.
      - Vocs no podem se queixar - disse Tereca. - J
passei muitos dias sem um almoo assim. Uma irm minha,
garotiftha, morreu de fome. Eu a vi morrer.
      - No adianta contar essas coisas - reprovou-a o namo-
rado. - Pensa que entendem? S sabe quem passou por isso,
quem j nasceu nisso.
      - Eles no devem saber - concordou Tereca. - Podem
ter visto na televiso, essas reportagens, mas quem v logo es-
quece, h coisas muito melhores para lembrar.
      Apesar da situao, a figura do Baixo, firme, segura, ins-
pirava curiosidade em Pat e Cludio. Havia nele o chefe, o que
decidia e mandava. Tinham a imprsso de que se ele no
fosse assim, com tudo de adulto, os outros os maltratariam e
 talvez os matassem de fome. Se eram mais que trombadinhas,
agindo como bandidos adultos, deviam ao seu lder. J Tereca
no tinha a mesma fora. Via-se nela a invejosa, muito cheia
daquele dio que o despeito cria nas pessoas. Com certeza
                                                             47
 detestava Pat por causa de sua roupa bonita, de sua pele bem
 tratada e do seu todo de quem no conhecera a misria. Tereca
 olhava para Pat como se esta fosse muito rica, o que no era,
 e Pat, sentindo-se rica por causa desse olhar, receava que a
 inveja da outra se transformasse numa arma. Cludio pro-
 curava no  demonstrar sua curiosidade, portando-se com natu-
 ralidade, alheio s diferenas que os separavam; talvez assim
 fosse mais fcil dialogar e lidar com aquela gente.
       - Vocs esto estudando? - perguntou o Baixo.
       - Estamos no Segundo Grau - respondeu Cludio.
       - Eu estudei alguns anos - disse o Baixo, mais lem-
 brando que dizendo. - Gostava de Geografia. A mataram
 meu pai e azarou tudo.
       - Quem matou seu pai? - perguntou Cludio.
       - Os tiras.
          Por qu?
       - Foi num assalto. Mas a culpa foi minha.
      --Sua?
      - Eu tinha uns cinco anos e fiquei doente. Ele estava
desempregado e partiu pra essa. Era o jeito. Por isso digo que
a culpa foi minha - e mudando de tom: - Podem ir ao
banheiro. Primeiro voc, mocinha.
      Assim que Pat siu, Cludio perguntou:
      -- Voc o chefe, no?
     - - Nunca disse que sou, eles que acham         respondeu o
Baixo revelando,, pela primeira vez, certa vaidade.
          No tem medo que a polcia apanhe vocs?
      - Tenho, mas um medo diferente desse que esto sen-
tindo. No meu h um pouco de jogo. Medo de perder a par-
tida. D para entender?
      Pat voltou do banheiro, era a vez de Cludio.
      Tereca aproximou-se de Pat.
      - Quero essa bolsa - disse. E apanhou-a no cho, antes
que Pat fizesse um movimento para entregar.
      - Se pedisse, ela lhe daria de presente - brincou o Baixo.
      - No aceito presentes, prefiro pegar o que quero.
      - Garota mal-educada!
      Cludio voltou para o quarto. A porta foi fechada. O
rapaz chegou bem perto da companheira e disse:
      - Acho que d para fugir pelo banheiro.
              QUEM ROUBA OS LADRES
      A turma estava proibida de fazer mesmo os furtos mais
insignificantes enquanto no tivesse recebido o resgate. Ordem
expressa, e muito repetida pelo Baixo, que temia certas brinca-
deiras do destino. Algum podia ser preso por roubar um cacho
de uvas na feira, um p-de-moleque no bar, e por to pouco a
Toca estaria localizada e invadida pelos tiras. No poderiam
confiar em bebezinhos como Tito e Pequins. Mas para ali-
mentar o pessoal faltava dinheiro. Baixo, Nariz e Tereca, com
os bolsos cheios de correntinhas, foram ver o Velho.
      O comprador de ouro estava instalado no segundo andar
dum prdio arcaico da Lapa, todo ocupado por pequenas fir-
                                                        arapucas
mas, limitadas a uma ou duas salas. Algumas eram arapucas
que ofereciam negcios mirabolantes a incautos. Havia tambm
uma alfaiataria sem freguesia, um calista, um sebo de livros e
revistas, uma ervanaria de plantas milagrosas e escritrios de
advogados preferidos por delinquentes de todos os naipes. O
Velho, seu Ernst. tambm Ernesto, alto e. magro, de cabelos
brancos e aspecto grave, trabalhava sozinho em seu estabeleci-
mento. Nas ruas, portando cartazes duplos, circulavam alguns
homens-sanduches, contratados para fazerem propaganda de
seu negcio. Era para esse cavalheiro, respeitvel vov - havia
um retrato de trs netinhos bonitos e saudveis na parede -,
que o Baixo e seu bando trabalhavam; era o receptor de todo o
 ouro que pudessem apanhar.
      Baixo. Nariz e Tereca entraram. O Velho atendia outro
 rapaz, com cara de assustado, que, depois de receber algum
 dinheiro num guich de vidro, desmaterializou-se, to apressado
 estava.
      - Seu Ernesto - disse o Baixo _. a gente est aqui de
 novo. O senhor disse que pagaria mais, que seria no racha,
 por isso voltamos. Preferimos fazer negcio com quem a gente
 j conhece.
      - O que trouxeram?
      O Baixo enfiou a mo nos bolsos e espalhou diversos
 objetos sobre um balco; o mais correntinhas e pulseiras, mas
 tambm dois relgios.
      - Coisa fina, no? Um desses relgios, novo, est na
 loja por um milho.
                                                              49
     Seu Ernst examinou as peas profissionalmente, sem se
espantar com a quantidade nem se encantar com a qualidade.
Mesmo se lhe trouxessem a coroa da rainha Elisabeth talvez
no esboasse reao.
    - Vocs j trouxeram coisas melhores - disse.
    - Veja o peso dessa pulseira.
    - Muito peso e pouco ouro.
    - No  macio?
    - Macio? Isso?
     O Baixo era esperto, mas como saber quando se tratava
de ouro macio ou no? O negcio tinha seus macetes, dos
quais no entendia. Nariz at que tinha razo em tentar um
lance alto. Depender daqueles roubos de peas de ouro no
dava camisa.
    - Quanto quer pagar por tudo?
    - Dou duzentos.
    -  pouco, tem os relgios.
    - No lido com relgios, compro s para colaborar.
    - O senhor disse que pagaria mais.
        Disse, mas o que trouxeram no vale nada.
    Nariz ficou irritado:
    - Vamos vender pro Cabea Vermelha.
    - O Cabea Vermelha, esse do Largo? - perguntou o
Velho.
    - Ele mesmo.
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     - A casa dele est fechada. A polcia. Aconselho a nem
passarem por perto.
     - Que aconteceu?
     - A polcia tem dado batida. Aqui tambm j veio. No
me fecharam a porta, mas me apertaram. Nunca dou o servio.
Isso tambm vale dinheiro, no? Bem, se no quiserem vender,
saiam.  bom no demorar.                                 -
         Pague mais um pouco, seu Ernesto.
     - Duzentos est bem pago. Dou mais cinqenta.
     - Os relgios tm muito ouro - quase suplicou o Baixo.
- Veja a marca. No  uma qualquer.
     - ltima oferta, trezentos. Vocs nunca pensam no meu
risco, no?
     Nariz fez com a cabea um gesto de assentimento ao Baixo.
Negcio fechado. O Velho abriu ligeiro uma gaveta e pagou.
Os trs saram topando na escada com um dos homens-sandu-
ches, idoso e aleijado.
      - Fomos roubados - disse Nariz.
      - Claro que fomos. Se ele pagasse o dobro seria pouco.
      - s vezes me d vontade de passar fogo nele. Sabe
que d?
         Ele no  pior que os outros. Apenas sabe que a gente
volta, sempre. As cartas dele so melhores que as nossas.
      - Ainda bem que bolei o seqestro - disse Nariz.
      - Pode ser - admitiu o Baixo.




                UM BURACO NA GAIOLA
     Ainda restavam sanduches e refrigerantes. Os dois sen-
taram-se no saco de estopa.
     - O que voc disse?
     - Que do banheiro  possvel fugir. H um grande buraco
na parede, na altura do teto. A janela est fechada e tem gra-
des. Mas pondo o p no peitoril da janela d para subir num
armrio. E do armrio no  difcil passar pelo buraco.
     - Ns no vamos ao banheiro juntos, mas um por vez.
                                                            51
      - Pensei no caso da gente poder tirar os pinos das dobra-
dias da porta.
      - No vai dar, Cludio. Veja como esto enferrujados!
Sairiam s a marteladas.
      - Isso . A no ser...
      - A no ser o qu?
     - Que eu escapasse, quando me deixassem ir ao banheiro,
e fosse chamar a polcia.       -
     - Acha que pode fazer isso?
     - Poder posso, mas eles estranhariam minha demora no
banheiro.
     - Vamos dizer que descobrissem sua fuga depois duns dez
minutos, o que fariam?
     - No sei o que fariam - declarou Cludio.
     - Eu sei o qu: fugiriam daqui para no serem presos.
     - Mas poderiam levar voc...
     - Acha que possuem outro esconderijo to bom?
     - Como este  difcil.
     - Ento, fugiriam.
     - Mas antes poderiam fazer algum mal a voc.
     - No creio, o chefe deles  inteligente. Se me fizessem
algum mal, o castigo que receberiam seria muito maior. Depois,
num aperto desses, s pensariam em escapar e mais nada. 
nossa oportunidade, Cludio.
     - Um momento, Pat. Me deixe pensar. Em quantos mi-
nutos eu alcanaria a rua e chamaria a policia? Preciso fazer
clculos.




                UMA IDA AU O MORRO
    Sebo estava no barraco de seus pais, logo no incio do
Morro. Sua me, Isaura, dera-lhe um bom caf com leite. O
que ele chamava de barraco era uma casa de dois cmodos,
muito pobre mas de tijolos. Tinha at televiso, preto e branco,
no bagao, porm televiso. O nico bem da famlia, depois
da casa. Sua me assistia a um programa quando ele chegara
da Toca. Justamente aquele em que a tia de Pat aparecera.
52
Viu e ouviu calado, sofrendo com as entrevistas e com os
comentrios da me.                                -
      - Que maldade! - exclamou Isaura. - Seqestrarem
uma menina to bonitinha! Sabe o que a polcia devia fazer?
Matar os que fizeram isso. No mereciam outra coisa.
      Depois Isaura serviu o caf para o filho e foi lavar roupa.
Sebo ficou diante do televisor, pensando. A me falara em
matar, e se o grupo matasse os dois; ele sentiria remorsos por
no ter avisado a polcia? Ficou com essa interrogao na
cabea, que ora sumia, ora crescia. Mesmo decidindo no pen-
sar mais nisso, pensava. Resolveu pegar sua caixa, descer o
Morro e engraxar.
      A janela ficava a um metro do cho e estava aberta. Al-
gum espiava para o interior da casa. Sebo viu Alis e levou
um susto.                                                      -
       - Que veio fazer aqui?
       - Vim alis por sua causa - ele gostava de dizer alis,
porm nem sempre colocava a palavra em lugar certo.
       - Por qu? Minha sada deu truta?
       - O grupo ficou grilado, mas o Baixo no. Ele que me
 mandou aqui, saber de suas intenes.
       - No tenho intenes, apenas no quis embarcar.
       - O Baixo acha que voc est certo. Alis eu tambm.
Mas a gente quer uma certeza. Estamos numa perigosa e nin-
gum quer nada com crocodilagem.
       - Se  s isso pode voltar, Alis. Vou ficar pr fora;
 quem der o servio tambm se ferra. Isso est no gibi.
           Era isso a, no tem mais- At.
       - Voc fica at o fim?
       - J que entrei no cinema vou ver o filme inteiro.
       Sebo ficou vendo o gorro verde de Alis afastar-se e
  descer o Morro. Melhor assim, sem atrito. Quem apareceu &
  janela em seguida, zangada ou assustada, foi sua me, Isaura.
       - Quem era aquele? Um tal que esteve preso com voc?
       - Era, me.
       - O que ele queria?
-      - Ver como vou passando.                        -
       - Ver... Quer arrastar voc outra' vez, eles s procuram
  pra isso. Nenhum desses quer entrar no inferno sozinho. -
                                                               53
     Sebo riu, pela janela puxou o rosto de sua me e beijou-o
nas duas faces.
     - Agora que o veterano deixou de beber, que est no ba-
tente, eu no vou fugir da raia - disse mostrando a caixa de
engraxar. - Estou voltando pra guerra e com toda a garra.
     - Posso acreditar em voc?
     - J estive l, me; chegou.
     A me de Sebo sorriu e, depois que ele saiu de casa,
ficou a v-lo, acenando.




            CHEGAM OS PAIS DE CLUDIO
      Um txi parou diante do hotel Royal, em Copacabana, e
um casal de meia-idade desceu, agitado. Um dos porteiros do
hotel foi apanhar as malas. Eram Walter e Celina, pais de
Cludio. Dirigiram-se imediatamente  portaria. J haviam
reservado apartamento.
      O gerente do hotel apresentou-lhes a ficha de entrada.
      - Tenho um filho hospedado aqui - disse Walter.
Cludio. no 332. Pode fechar a conta dele e passar sua mala
para nosso apartamento.
      - Ele no vai voltar?
      - Sim, mas no sabemos quando. Que apartamento vai
nos dar?
      - 0432.
      - Por favor, avise j a telefonista que estamos nesse
nmero. Esperamos um telefonema. J podemos subir?
      Um bellboy levou o casal ao apartamento e recebeu uma
gratificao. A me de Cludio no tinha nimo nem para
desfazer as malas. Largou-se numa poltrona.
      - Quanto tempo vamos esperar?
      - No muito, acredito. Vou ligar a televiso, quem sabe
a polcia j saiba do caso.
      - Seria pior se soubesse.
      - Tambm penso assim. Prefiro que tudo seja mais sim-
ples.
      - Voc contou bem o dinheiro?
                                                              55
     - Contei disse, retirando duma mala grande uma pe-
quena valise. - Aqui esto todas as nossas economias. A en-
trada para a compra do apartamento.
     - Daria muito mais para ter nosso filho de volta.
     Walter dirigiu-se ao telefone.
     - Telefonista,  do 432. Meu nome  Walter Menezes,
estou aguardando um telefonema: Obrigado.
     Celina assistia  televiso. Seu marido sentou-se na cama
tambm olhando para o aparelho. Era hora do telejornal, que
nunca perdiam. .Uma das primeiras imagens que viram foi o
rosto de Patrcia. Algum viu esta garota?
     - Deve ser a tal menina que est junto com Cludio.




              A DIVISO DOS MILHES.
             QUE AINDA NO CHEGARAM
      No salo da Toca houve outra reunio, j  luz de velas.
 Alis contou que estivera no Morro e que vira Sebo. Podiam
ficar tranqilos, ele io ia se abrir. Desapareceu porque resol-
vera mudar de vida, no daria ningum. O Baixo relatou'a ida
ao Velho: rendera trezentas milhas.
      - S isso? - berrou o violonista.
      - E nem mais um muito obrigado.
      - Mas ele disse que pagaria melhor.
      - Disse mas no pagou.
      - Por que no foram ao Cabea Vermelha?
   - - A polcia fechou a casa dele. E est fechando outras
que compram ouro, O Velho ainda est aberto porque  muito
vivo.
      -  uma ninharia - disse Baden, inconformado. -
Quanto vai caber a cada um?
     - Tto e Pequins no fizeram quase nada - disse Nariz.
- Vo levar vinte cada um. Voc e Alis trinta cada.
     - Somando tudo cem - calculou Baden. - E os outros
duzentos? Ficam com vocs?  muita disparidade!
     - Fique frio - advertiu-lhe Nariz. - Temos nossas des-
pesas. No vo querer que os pssaros morram de fome. Vo
56
se agentando com esses pichuls, a grana. grossa est a
caminho.
     Baden olhou para Alis: queria apoio.
     - J que se fala em tutu, como  que vamos dividir os
milhes?
     Alis enfiou o gorro na cabea at cobrir as orelhas, sinal
que estava atento.
     - No pensei nisso - disse Nariz.
     - Mas tem que pensar. O que diz, Baixo?.
     - Podemos tratar disso agora - opinou o chefe. - Acho
bom j pr os pingos.
     Era a vez de Nariz falar, mas ele acendeu um cigarro,
pensando. pensando.
      - A gente quer ver tudo claro - insistiu Alis. - Esta-
mos na mesma canoa.
      - Cale a boca voc - replicou Nariz. - O que fez at
agora? S foi dar recado ao Sebo. Quem ajudou foi o Baden
e o Tito. E o Pequins, participou de qu?
      - Pensei que levaramos partes iguais - disse Alis.
      - Pensou errado.
      - Como vai ser ento? - quis saber Pequins. - A
 gente leva quanto?
      Nariz nunca fora to chefe como naquele momento; uma
 das velas iluminava s a sua cara. O Baixo estava sentado,
 olhando para o cho. Tereca. tensa. Chegara a hora da sin-
 ceridade.
      - Voc, Pequins, leva cinco. Para um frango de treze
 anos  uma nota. Voc, Alis, leva dez e - fica devendo um
 muito obrigado. A j tem quinze.
  - - E eu? - perguntou Tito, sem muitas iluses.
       - Voc esteve na ao, merece mais. Vou pr quinze no
 seu bolso. Muita gente boa tem de trabalhar um ano pra
 ganhar isso. Somando j d trinta.
       Baden fez uma gracinha para lucrar mais:
          Lembra-se que quero comprar um violo novo dos in-
 crementados?
       - Com o que vou lhe dar voc pode comprar todos os
 instrumentos duma orquestra: trinta tijolos. Resolve?
       - Para mim encerra o assunto.
       Todos olharam para Tereca; ela entraria na diviso?
                                                              57
      - A Tereca  questo para o Baixo - disse Nariz. -
 So uma dupla. Mas vai levar dez pra no falar mal de mim.
 Setenta j voaram.
      Alis, que no gostara das contas, provocou:
      - O resto voc vai dividir com o Baixo?
      Todos pensaram que ia haver pausa, mas no hou've.
      - O Baixo  o gerente da Toca, mas no entra no racha.
 Com quarenta vai poder at casar.
         Voc sai desta rico, Nariz - comentou Tito.
      - Mas eu arcarei com outros gastos, se houver. A gente
 nunca sabe. De qualquer maneira, todos j esto convidados
 para a prxima.
      O Baixo levantou-se:
     - Vamos telefonar, j devem ter chegado.




               SEU WALTER E UMA VOZ
     Walter atendeu ao telefone no primeiro toque.
     - O pai de Cludio?
     - Sim.
     - Oua bem: como dissemos, Cludio no est sozinho.
 Tem uma moa.
     - Essa que a televiso deu?
    - No sei se a televiso deu.
    - Chama-se Patrcia, veio de Brasilia.
    - Ento . No d pra tratar dos casos em separado.
Procure a tia dela e diga quanto queremos. Cem por cabea.
Pegue o dinheiro e fique a no hotel com ele.
    - Mas onde ela mora?
    - Descubra o senhor. A menina no sabe nem o nmero
do prdio. Pergunte na televiso.
    - A a polcia ficar sabendo.
    - Da menina ela j sabe, saber dos dois, no faz dife-
rena. O importante  que ela no se meta. O senhor vai con-
venc-la disso. Trouxe o dinheiro?
        Est aqui.
    - Ento, mexa-se. Amanh a gente telefona.
58
    - Um momento, como ele est?
    - Bem, aqui no tem as estrelas do hotel Royal, mas ele
no est se queixando. Desligo.
    Walter desligou tambm o telefone.
    - Eram eles? - perguntou Celina com a boca seca.
    - Eram. A garota que apareceu na televiso est junto.
Querem que entremos em contato com a famlia dela.
    - Como vamos fazer isso?
    - Pegue a lista telefnica. Vou ligar para a polcia.




     SEQESTRADOS TAMBM FAZEM PLANOS
     Pat e Cludio s falavam no plano de fuga. Ia ser pela
manh, quando lhe abrissem a poria para irem ao banheiro.
         Acha mesmo que poder atingir o buraco?
     - Sou bastante gil, no tanto quanto meu irmo, um
dos bons do vlei, mas tenho boas pernas.
     - Chegando ao buraco, o que vai fazer? Pense bem nisso.
     - Se houver um muro no quintal saltarei para a casa ao
lado,  a melhor hiptese.
     - E se no lugar do muro tiver o paredo da outra casa?
     - A a coisa se complica um pouco. Terei de andar pelo
telhado.
     - Andar pelo telhado at onde?
      - At a frente da casa, na rua.
          Mas seria difcil descer do telhado.
      - Seria, Pai, se isto fosse um sobrado, a no dava. Mas
vai dar, a buraqueira da fachada dar apoio aos, meus ps.
      - Cuidado, no v se machucar ao saltar para a rua.
      - J pus esse dado no meu computador.
      Pat fixava-se nos detalhes:
      - Cinco minutos depois de voc entrar no banheiro, j
 estaro batendo na porta.
      - Tive uma idia para prolongar a espera, Direi que
 estou com dor de barriga, assim me daro mais tempo. Quando
 derem pelo meu sumio, j estarei na rua, chamando a polcia.
      - Isso pode demorar uns quinze minutos.
                                                            59
      - Se o. trnsito j estiver desimpedido, pararei o primeiro
 carro que passar. Todo bairro tem uma delegacia. Mais cinco
 minutos estarei l. Menos ainda, se por sorte a delegacia for
 aqui peno.
      -  preciso ter coragem, Cludio.
          Nunca me senti muito corajoso, mas coragem  coisa
 que tambm se inventa.
      - Confio em voc - disse Pat, com um sorriso que fez
 Cludio lembrar-se da garota alegre que ele conhecera antes
 do seqestro.                                                   -
      O rapaz ps-se de p.
      - Sabe o que vou fazer agora? Ginstica. Preciso ama-
 ciar os msculos.




          CHEGAM TAMBM OS PAIS DE PAT
     Campainha. Elisa abriu a port do apartamento.
     Ana e Rogrio, pais de Pat, entraram precipitadamente.
     - J sabem o que aconteceu?
     - Soubemos em Planaltina. Foi seqestro?
     - No sabemos - respondeu Elisa.
     - Os seqestradores ainda no fizeram contato? - per-
guntou Rogrio.
    -  o que estranho; ainda no.
     Rogrio tinha muitas perguntas a fazer:
    - E a polcia, o que tem feito?
    - J est se mexendo. Par foi vista pela ltima vez no
museu do Catete com um rapaz.
    - Com um rapaz? Pode ser o seqestrador.
    - Pode ser - disse Elisa. - Vocs vo ficar aqui, no?
    - Ficamos - disse Ana -, mas vejo um inconveniente.
Voc no tem telefone. Como os bandidos nos chamariam?
    - O vizinho tem telefone,  boa gente e tem cooperado.
Demos o nmero pelo rdio e pela televiso.
    - Meu maior medo  que a tenham matado - murmurou
Ana. - Se quisessem dinheiro j teriam se comunicado de
alguma forma.
60
    - Acho que Pat nem sabia o nmero desse edifcio -
disse Elisa. - E o fato de eu no ter telefone pode tambm ter
confundido os seqestradores. Vamos esperar.
     - Estou me sentindo mal - murmurou Ana;-
     - Venha para o quarto. Lhe darei um calmante. Preci-
samos ser fortes. Sei que  difcil, mas precisamos.
     Vinte minutos depois que Walter telefonou para uma das
delegacias do Rio, o investigador Waimor apareceu no hotel.
No fora coincidncia, a delegacia contatada informara  que
cuidava do caso.
     - Quantos telefonemas houve? - perguntou Walmor.
     - Dois, um para-nosso apartamento, em Curitiba, e outro
para c - precipitou-se Celin.
     - A mesma voz nos dois?
     - Parece que sim; voz de rapaz. No lhe daria mais que
vinte anos - respondeu Walter olhando para a esposa.
     - Ele pediu para ligarem  polcia?
     - No propriamente isso; pediu que procurssemos a
famlia da menina, Patrcia.
     - Ah, esto juntos? Ento seu filho  o rapaz que foi
visto com ela no museu! Falaram em resgate?
     - Pediram cem milhes por cabea, a expresso dele. J
trouxemos o dinheiro.
     - No  nenhuma fortuna - considerou o investigador.
- Como a voz ao telefone era de um jovem d para pensar
que o seqestro foi praticado por gente moa e inexperiente.
Profissionais pediriam muito mais.
      - No h nenhuma pista?
      - Ainda no. Ficaram de telefonar, quando?
      - Amanh. Querem, inclusive, que o dinheiro dos pais
da mocinha j esteja conosco. Espero que eles disponham da
quantia para apressar o resgate.
      - Bem, provavelmente os pais da moa j chegaram de
Braslia. Vamos at o apartamento de dona Elisa, a tia.
      - Voc prefere ficar? - perguntou Walter a Celina.
      - No. Quero ir junto.                    -
 -    Iam saindo quando o investigador se lembrou de perguntar:
   - - Trouxeram algum retrato de Cludio?
                                                             61
     - Trouxemos um bem ntido - respondeu a me do
 rapaz.
     - timo! Isso ajuda. Vamos tirar muitas cpias.
     Saram os trs s pressas.




            BADEN, QUE J FOI RAIMUNDO

      Baden pegou uma vela e levou-a para o depsito. Preci-
 sava escrever uma carta; h meses que no mandava uma linha
 para Salvador. Nos dois anos de Rio, s trs cartas. Sua me
nem ficou sabendo que ele estivera no instituto e que dissera
l que era sozinho no mundo. Mentira; tinha me, tia e at
 uma av j sem memria de nada. Viver com trs mulheres,
sempre lhe cobrando trabalho e seriedade, fora demais. Um
dia pegou o violo, colou um recado no espelho e fugiu para
o Rio, querendo ser artista. Chegando, participou de progra-
mas de calouros, ficou semanas nas salas de espera de emissoras
de televiso, pediu oportunidades em gravadoras de discos, mas
no conseguiu nem promessa. Sem um cruzeiro no bolso, no
querendo e no podendo voltar para a Bahia, comeou a rou-
bar. Preso algumas vezes, como era menor de idade foi para o
reformatrio. L conheceu rapazes muito mais espertos, que
lhe ensinaram certo jogo de cintura para sobreviver. Um deles,
o Nariz, tornou-se o companheiro das fugas e dos roubos. Acha-
va que o amigo ia longe, um dia seria algum, e grudou-se nele.
     Com uma esferogrfica, escreveu:
             Me,
        sou eu, o Raimundo. Como est a senhora, a tia e a
        av? Eu vou bem, de sade e do resta Andei penan-
        do, sem dinheiro, mas aprendi a me virar. Moro um
        dia aqui, outro ali, comendo sempre. Ganho os meus
        com o violo, em festinhas, nas churrascarias e nos
        bailes de subrbio. Me chamam de Baden, um cara
        muito conhecido que toca violo, grava e viaja Acho
        que um dia chego l. Ainda no deu pra mandar
62
        grana pra  vocs, mas est perta Me prometeram uma
        montanha de dinheiro por uns espetculos. Reze, me,
        fale com quem manda a nos terreiros, porque se a
        coisa colar, se tudo sair certinho, irei visitar vocs.
        Acho que at vai dar pra comprar uma casa. A se-
        nhora sempre quis uma, no?  s isso, por hoje, e
        me puxe que j estou indo.

                                          Seu filho Raimundo




QUATRO PESSOAS SOFREDORAS SE ENCONTRAM
     Waimor, Celina e Walter entraram no apartamento de
Elisa. O pai de Patrcia estava na sala, fumando como um
doido. Ana surgiu logo depois, muito plida e at com difi-
culdade de andar.
     Walmor apresentou-se:
     - Sou o investigador que est cuidando do caso. O filho
de seu Walter e de dona celina tambm foi sequestrado. Eles
esto juntos.
     - O filho do senhor foi seqestrado com minha filha? -
perguntou Rogrio.
     - Parece que se conheceram no museu do Catete. Meu
filho tambm veio ao Rio a passeio. Somos de Curitiba.
     - Como sabem que eles foram seqestrados juntos?
     - Os seqestradores j entraram em contato comigo, no
hotel Royal, onde estamos hospedados. Pediram que eu pro-
curasse os senhores para tratarmos do resgate. Ficaram de
ligar amanh para o hotel.
     - Quanto querem? - perguntou dona Ana, aflita.
     - Cem milhes pelo meu filho, cem pela sua filha. J
haviam estipulado essa quantia quando telefonaram para nossa
casa, no Paran. Eu j trouxe o dinheiro. O senhor dispe
dessa importncia?
     - No - respondeu Rogrio. - O que trouxe de Bra-
slia  bem menos que isso. Mas posso ir ao meu banco -
                                                             63
 h agncias aqui - e levantar o que falta. Supunha, alis,
 que pedissem muito mais.
      - Deve ser uma quadrilha de menores - disse o investi-
 gador Walmor. - A voz de um dos seqestradores, segundo
 seu Walter,  a dum jovem. Gente do ramo raptaria filhos de
 algum ricao, e nunca dois duma vez. Evidentemente, no
 houve plano. Surgiu a oportunidade e o seqestro foi feito.
 Puro amadorismo.
      - O que a polcia j fez ? - perguntou Rogrio.
      - Est fazendo investigaes no bairro onde foram vistos.
 O retrato de Patrcia est sendo mostrado em todos os estabe-
 lecimentos comerciais, inclusive em bares e padarias.
      - Devem fazer o mesmo com o retrato do meu filho -
 sugeriu Celina.
      - Amanh conseguirei o dinheiro - garantiu Rogrio.
- Ser que amanh mesmo pagaremos o resgate e teremos
nossos filhos de volta?
     - Sobre isso precisamos ter uma cdnversa muito sria
com a polcia - disse Walter. - Nossa principal inteno 
libertar os garotos. Punir os culpados  assunto para depois.
Se os seqestradores notarem algum risco, podero adiar e
complicar a operao. Muitas vezes matam suas vtimas, como
vingana, quando as coisas no correm bem.
     - A polcia sabe disso - disse o investigador. --A que
horas telefonaro para o hotel?
     - Logo cedo, suponho - respondeu Walter.
     - Eu estarei l.
     - Agora eu e minha mulher vamos voltar para o hotel
- disse o pai de Cludio. - No prometeram telefonar hoje,
mas podem mudar os planos.
     - E eu vou mandar tirar cpias da foto de seu filho -
disse Waimor. - Certa vez um falso cego, mendigando, foi
quem viu a pessoa que procurvamos.




64
      INTERVALO PARA UM BANHO DE MAR:
             O BAIXO E A TERECA
     Baixo e Tereca passeavam pela praia de Copacabana, am-
bos com mais por sob a roupa. Idia dele, surgida  noite.
A moa pensou que brincasse: tomar banho de mar com um
problema daqueles na cabea? Mas ele falava srio e explicou
que sol, gua e areia era o melhor remdio para aliviar os
nervos. Pior era ficar na Toca, respirando aquele ar velho, a
ver o medo dos outros crescer de minuto a minuto.
     - Isto  o Rio, no? Ento vamos  praia, como qual-
quer pessoa ou como se estivssemos em lua-de-mel.
     Tereca era carioca, o Baixo no. Viera do interior do
Cear, das terras secas, do flagelo. Lembrava-se de l e de sua
me, rezando para chover. Um dia no rezou: estava morta.
A famlia foi cada um para um lado. O Baixo era garoto, mas
no quis ser o ltimo. Um dia viu uma revista, jogada num
canto. Arregalou os olhos, vendo o sol, a areia e aquele desper-
dcio de gua. Leu mil vezes a reportagem, mas na primeira
j decidira: ia morar no Rio. No tinha dinheiro para a via-
gem. Soube de algum que conseguira chegar pedindo carona.
Comeou por uma carroa; depois pediu carona a um caminho
que ia  Fortaleza; a furges, pick-ups, kombis, jipes, cami-
nhonetes, carros de marcas que no existem mais, at jamantas.
Mas entre uma carona e outra, sempre um pedao a p, dor-
mindo muitas vezes ao' relento. Sem falar da fome, pois nem
sempre quem d conduo d comida. Uma vez enfiou a mo
na gaveta dum bar de estrada e saiu correndo. A primeira por-
que tinha fome; a segunda porque j tinha aprendido. A viagem
durou dois meses. Ao chegar, constatou que havia, sim, uma
 festa constante nas praias, mas para a qual no havia sido
 convidado.
      - No sou de freqentar a praia - disse a Tereca -.
 mas tem momentos que se no vier, morro. Todas as vezes
 que fugi do instituto, por exemplo. Os outros logo se escon-
 dem. Eu no, venho  praia e me mostro. A gente se sente
 igual,  iluso, mas iluso pode ter a mesma cara da verdade.
      O Baixo e a Tereca j haviam tirado a roupa e estavam
 de mai; sentaram-se na areia. Ela observava-o: no era o
 mesmo da Toca.
                                                              65
       - No h praia sem sorvete - disse Tereca, chamando
  um garoto. - Dois de palito.
       - O Tito foi um desses garotos - lembrou o Baixo. -
 Eu o conheci numa praia, vendendo sorvete. Largue disso,
 lhe disse; tudo que derrete no d futuro.
       Entraram no mar, ficaram um tempo. O Baixo nunca
 aprendera a nadar, ao contrrio de Tereca, um peixe; mas nem
 por isso gostava menos. S deixou de brincar para ver as pran-
 chas, invejando; surfe era para os assduos, os que entendiam
 de ondas, pessoas do mar, os queimados. Voltaram para a
 areia, ele com os olhos numa tenda sob a qual homens gordos
 e moas bonitas bebiam lquidos coloridos, com muito gelo.
       - Quanto deve custar aquela sombra?! - o Baixo ex-
 clamou.
       - Gr-finos! - exclamou Tereca. - Eles sabem o que 
 bom. Veja o tamanho daquele camaro. Um s j  um ban-
 quete.
       Sentaram-se perto da tenda para apreciar, o Baixo muito
 interessado.
       - O que est rindo, o velhote, deve ser um vivao. Que
 pinta!
       - Acha que no  gente de bem?
      - Tereca, h tambm os de colarinho branco. No ouviu
falar? Sei deles pelos jornais. Nunca se sujam por pouco e
no arriscam a pele. s vezes, o que roubam num dia, cem de
ns no roubam numa vida inteirinha. Esses que admiro! Agem
nos escritrios, cercados de secretrias, com o ar sempre fresco,
bons de papo, curtindo a vida. Numa tacada arrancam milhes.
E se a coisa complica, com um telefonema limpam a barra.
      - Mas o governo no azara com eles? - perguntou
Tereca.
      - Acontece que muitos so o governo ou esto no mesmo
barco. E se um negcio ou outro melar, se acaba estourando,
no se preocupam porque o deles j est bem guardado, fora
da questo, e o prejuzo quem paga nem sabe que est pagando,
e por isso no reclama, esse povo otrio que enche as cidades.
      - Ento voc gostaria de ser um desses?
      - De colarinho branco? Sonhar alto  uma canseira. No
tenho pique pra chegar l. Quer uma cerveja no bar?
      - Precisamos telefonar, esqueceu?
66
    - Sabe que ia esquecendo mesmo? - espantou-se o Baixo.
- Como gua salgada lava a cuca- da gente! Correndo pra
Toca, garotona!
    - Lembrei que no demos caf nem deixamos aqueles
dois ir ao banheiro.
     - Algum l faz isso.




                   A OPORTUNIDADE
    Pat e Cludio estranhavam que ningum lhes abrisse a
porta do crcere, uma tortura para eles, que haviam passado
quase a noite toda em claro, esperando. No imaginavam nem
que horas eram quando ouviram passos e o barulho da chave.
Nariz e Baden, zangados, abriram a porta.
    - Isso  servio da Tereca - resmungava Nariz. - Onde
ser que ela e o Baixo se meteram? V voc ao banheiro -
ordenou a Pat, que obedeceu depressa:
     - Como esto as coisas? - perguntou Cludio.
     - Fique frio, rapazinho - disse Nariz. - Se os pais de
vocs seguirem nossas instrues, deixando a polcia de fora,
no haver chabu.
     - Esto com fome? - perguntou Baden.
     - Um pouco.
     - J mandamos comprar sanduches e um pouco de leite.
     Pat voltou do banheiro, plida. Era a vez de Cludio, e
se os dois no estivessem perto, pediria que no tentasse. O
buraco no teto parecera-lhe alto demais.
     Passando a mo na barriga, Cludio dizia a Nariz e a Baden
que estava com dores, o que significava que levaria avante seu
plano. Assim que voltou ao quarto, vendo o companheiro
dirigir-se ao banheiro, Pat decidiu puxar conversa para que
Cludio ganhasse mais tempo para agir.
     - Ainda no falaram com minha tia?
     - Com ela ainda no - respondeu Nariz. - Apenas
com o pai do garoto.
     - No sabem se meus pais j chegaram de Braslia?
                                                            67
    - J devem ter chegado - disse Baden. - Logo telefo-
naremos outra vez.
    - Para onde?
    - Para o hotel onde os pais dele esto hospedados.


     Cludio fechou a porta do banheiro e, olhando para o
buraco do teto, teve a mesma impresso que Pat: a altura era
maior vista do que lembrada. Sua hesitao, porm, demorou
segundos. Ps um p na borda estreita da banheira e outro
no peitoril da janela. Que bom, havia um gancho enferrujado,
talvez usado para pendurar toalhas, tiro acima do pei-
toril! Se apoiasse o p direito nele, e o gancho no cedesse,
poderia equilibrar-se enfiando os dedos nos buracos profundos
da parede. Dali alcanaria com alguma facilidade a grande
abertura do teto e ento caminharia sobre as telhas. Se o gan-
cho agentasse seu peso, tudo bem,


     Pat continuou fazendo perguntas a Nariz e a Baden:
     - Quanto  mesmo que vocs querem de resgate?
     - Duzentos milhes - respondeu Nariz. - O pai de
Cludio j trouxe a sua parte. Seus pais tm esse dinheiro?
     - Acho que no trariam tanto de Braslia - disse Pat.
- Tero que arranjar aqui.
     - Eles tm amigos aqui no Rio?
     - Alguns, talvez. Conseguiro emprstimo num banco.
     Baden estava impaciente.
     - Seu amiguinho est demorando muito.
     - Ele acordou com dores de barriga - disse Pai.
     - Vou bater na porta - decidiu Baden.
     Pat ouviu o violonista dar uma batida na porta. Em se-
guida, a voz de Cludio, com um "j vou" distante. Ele ainda
no conseguiu escapar do banheiro, pensou a garota, quase com
a certeza de que no o conseguiria. Melhor conformar-se.


     O gancho estava suportando o peso de Cludio, mas equi-
librar-se sobre ele, com as mos nos buracos da parede, no
era to simples. Alm d posio incmoda, a respirao.
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u.cgallte, tambm atrapalhava. Seu nervosismo, maior a cada
instante, agia contra ele. Agilidade s no bastava; calma pare-
cia-lhe agora mais importante. O certo  que no poderia con-
tinuar ali como um inseto na parede. Era o momento do im-
pulso para atingir o teto, que no teria xito sem determinao
e confiana. Respirou profundamente e pensou nos pais para
que a lembrana deles lhe desse foras. Ento ouviu um rudo,
de coisa que se esmigalha, e sentiu o gancho que o sustentava
menos fixo na parede. Se demorasse, poderia despencar. No
pensou mais, saltou.

       Que dor de barriga! - exclamou Nariz, implicando
com a demora de Cludio.
    - Vocs vo nos soltar onde, aqui mesmo nesta rua? -
perguntou Pat no seu plano de dar mais tempo a Cludio.
    Nariz no respondeu, ordenando a Baden:
    - Bata outra vez na porta.
     Baden saiu do quarto e tomou a bater na porta do banhei-
ro. Como no houve resposta, bateu com mais fora. No
precisou chamar Nariz, que surgiu ao seu lado. Os dois bate-
ram ao mesmo tempo, enquanto Tito e Pequins chegavam
com o leite e os sanduches. Alis apareceu sonolento. Logo
estavam os cinco diante da porta.

     No foi um salto de atleta, mas Cludio pde segurar-se
perfeitamente entre o forro e as telhas da casa. No dava,
porm, para respirar aliviado. Pisando no madeirame podre da
cobertura, viu parte do telhado. Mais um impulso, sem risco,
e se ps de p sobre as telhas, sentindo o sol na pele e respi-
rando o ar livre. No viu nenhum quintal ao lado para o qual
pudesse saltar, nenhum terreno baldio que lhe facilitasse a fuga.
Teria de andar pelo telhado at a frente da casa, o que no
seria o final da faanha, mas o incio de outra etapa.

     Nariz, Baden, Tito e Pequins esmurravam inutilmente a
 porta do banheiro. Alis, afastado, no acordara totalmente.
                                                               69
     - Ele deve ter fugido pelo teto! - adivinhou Nariz. E
ordenou aos outros: - Vo vocs para a rua; se ele saltar para
a calada, agarrem.
     Pat apareceu  porta do quarto confusa e trmula. Olhava
para o corredor que ligava  cozinha, talvez pensando numa
possibilidade de escapar tambm. No pensou nisso muito
tempo.
     - Entre! - berrou o violonista, empurrando-a para den-
tro do quarto. Depois, fechou a porta a chave. - O que vamos
fazer? - perguntou a Nariz. - A gente no vai poder arrom-
bar essa porta.
     - Tem um jeito - respondeu Nariz, correndo para o
depsito.


     Cludio no conseguia caminhar de p sobre o telhado,
escorregadio e quebradio; tinha que engatinhar, sujando as
mos e as calas, na altura dos joelhos. E agora j estava certo
de que no seria possvel abrigar-se na casa vizinha. Via apenas
telhas e sobre ele o cu, muito azul e sem fim. Acreditava que
se aproximava da rua e perguntava-se se os seqestradQres j
sabiam da fuga.


      No quarto, trancada, Pat ouvia pancadas violentas na porta
do banheiro, no , produzidas por murros ou pontaps. Nariz
reaparecera com um machado e, a golpes odientos e consecu-
tivos, abria um buraco na fechadura da porta, ante a expecta-
tiva de Baden.
     Tito, Pequins e Alis haviam chegado  rua e olhavam
para o telhado. Ainda no viam Cludio. Mas viram duas
pessoas quase correndo na calada, o Baixo e a Tereca.
     - Tudo bem aqui? - perguntou o Baixo. - Ns nos
atrasamos um pouco.
     - Bem nada! - respondeu Tito. - Um dos pssaros
est escapando.
     - O que est dizendo?
     - O garoto, ele dev ter fugido por aquele buraco no
forro do banheiro. Mas ainda est l em cima. Estamos espe-
rando que desa, para agarr-lo.
70
     O Baixo dirigiu-se  Tereca:
     - Fique com eles - disse, entrando precipitadamente na
Toca.
     Mais uma fone machadada e a porta cedeu. O Baixo
aproximou-se correndo; sentia-se um tanto culpado pela sua
demora. Os trs entraram no banheiro, olhando para o buraco,
no alto.
      - O garoto  um atleta! - exclamou o Baixo.
      - Vou subir - disse Nariz. - Me ajudem!
      Mas no foi preciso ajudarem; antes de pr o p no pei-
toril da janela, Nariz j vira o gancho que possibilitam a tenta-
tiva de fuga de Cludio. O Baixo, que no possua a agilidade
do companheiro nem suas pernas compridas, admirou-se quan-
do o viu, em poucos instantes, alcanar o forro e passar para
o telhado. Ele no seria capaz. Uma pergunta o aborreceu:
O chefe devia ser o mais inteligente ou o mais forte? Baden
olhou-o com um sorriso de canto dos lbios, que explicava por
que era mais ligado e obediente a Nariz.


     Cludio desceu, engatinhando, uma pirmide de telhas,
e, chegando  beirada do telhado, viu as casas do outro lado.
L estava o botequim onde fora pedir informaes. E uma
novidade que reforou suas esperanas: a rua estava desim-
pedida, j passavam carros. Fez um sinal, com o brao, a um
Fusca; o motorista, atento  direo, no o viu. Olhou para a
calada, disposto a pedir socorro  primeira pessoa que pas-
sasse. Mas no esperaria; segurando-se com firmeza nas bordas
duma telha, soltaria as pernas no espao, encurtando a altura
da queda. Mesmo assim, o impacto no solo seria grande. S
o desespero lhe daria coragem para tanto.
     - Olhe ele ali! - gritou Tito.
     Cludio viu Tito e Pequins na calada. No recuou e
j no adiantava esconder-se; fora visto. O que lhe restava
fazer era saltar e enfrentar os dois. Transeuntes poderiam agir
em sua ajuda, contaria o que estava acontecendo. Ouem sabe
um tumulto diante do casaro resultasse numa soluo ainda
mais fcil.
     - Vamos pegar voc - disse Pequins.
                                                               71
     Sem intimidar-se, Cludio ia enfrentar o risco quando ouviu
outra voz, esta vindo do telhado. Olhou, era Nariz.
     - Volte, garoto - ele exigiu. - No deu certo desta vez.
  Cludio no estava disposto a voltar.
     - Venha me buscar - disse, j com mais raiva do que
medo.
      Nariz mostrou um revlver.
      - Se continuar a bancar o valente, leva bala.
      Cludio olhou para a rua; se passasse um carro, lento, ou
algum transeunte, gritaria. Fora longe demais para entregar a
partida. Havia um declive no telhado. Rolou para ele, prote-
gendo-se de qualquer disparo.
      - Atire, se quiser! - desafiou. - Daqui no saio!
      Nariz ficou desorientado por algum tempo.
      - Se voc no voltar j - ameaou -, sua amiguinha
vai pagar. Nem imagina o que faremos com ela. Ou voc no
se importa?
       Cludio no precisou ouvir mais nada. Levantou-se, acei-
 tando seu fracasso. Lanou ainda um ltimo olhar para a rua,
 onde, na calada oposta, uma mulher passava levando pela mo
 um menino. O menino o viu sobre o telhado e inutilmente ten-
 tou chamar a ateno da me.
       - Estou voltando - disse Cludio.
       - Voc  esperto - declarou Nariz ainda com a arma
 na mo -, mas faltou um pouco de sorte. Mas, cuidado! Se
 escorregar e quebrar a cara, no v pensar que chamaremos o
  pronto-socorro.

      Ao descer pelo buraco do banheiro, Cludio viu Baden e
 Baixo,  espera dele. Baden olhava-o com dio, Baixo com
 certa admirao. O que ele fizera exigia coragem. No era
 coisa para qualquer babaquara.
      - Por um triz que ele no escapa - disse Nariz. - Agora
 ele no ir mais sozinho ao banheiro. Mas onde voc andou?
 - perguntou dirigindo-se ao Baixo. - Esqueceu que temos
 obrigaes?
      - Ficamos presos no trnsito - o Baixo respondeu, sen-
 tindo que depois daquela caada sobre o telhado Nariz voltara
 a comandar o grupo.
                                                              73
      - Voc est queimado. O que  isso? Praia?
      Tito, Pequins e Alis apareceram.
      - Melou a fuga do pssaro - disse Alis, finalmente
 acordado.
      - Graas ao Nariz - disse Baden.           -
      A porta do quarto foi aberta. Nariz empurrou Cludio
 para dentro com fora.
     - A gente devia aumentar o resgate por causa disso!


      Cludio olhou para Pat um tanto envergonhado.
         Cheguei at a ponta do telhado. Estava tudo dando
certo. Ia pular para a rua, mesmo com os dois menores l
embaixo. Mas Nariz apareceu no telhado com um revlver.
     Pat abraou o companheiro. A fuga fracassara, mas ele
estava vivo e inteiro.
     - Voc fez o possvel - disse. - Outro no se arriscaria
tanto.
     - Nem sei como tive coragem - admitiu Cludio. - Eu
nunca tinha andado num telhado antes. No  o mesmo que
andar sobre o asfalto.
     - Como sua roupa est suja!
     Cludio sentou-se no cho, exausto.
     - Agora o que resta  esperar.




                  OUTRO TELEFONEMA
      Os pais de Cludio e os de Pat estavam desde cedo no
hotel  espera do telefonema dos seqestradores. Os quatro no
apartamento de Walter e Celina, sentados, um olhando para o
outro, a mesma ansiedade. Walmor e dois outros investigadores
aguardavam o chamado junto  telefonista. Haviam prometido
que a polcia no dificultaria o resgate nem colocaria em risco
a vida dos seqestrados, porm queriam acompanhar o caso
em todos os seus episdios.
     - Pensei que ligassem no perodo da mafih e j passa
de uma da tarde - disse o pai de Pat.
74
     - E quanto ao dinheiro? - perguntou Walter.
     - Telefonei para a agncia. J devem ter se comunicado
com Braslia. Minha preocupao agora  esse telefonema. Por
que no chamam? Eles deviam ter tanta pressa quanto ns;
     - Ainda mais agora que o retrato de meu filho tambm
est nos jornais e que j foi mostrado na televiso. O tempo
est contra eles..
     O telefone. Walter no esperou o segundo toque para
atender.
     - Pronto.
     - 0 pai de Cludio?
     - Sim.
     - J entrou em contato com o pai da garota?
     - Ele est aqui.
      - Tm o dinheiro?
      - Seu Rogrio estava esperando este telefonema para
conseguir.
      - Vai conseguir?
      - Vai, podem marcar j o local do resgate.
      Uma pausa.
      - Ainda no. O telefonema foi s para saber do seu en-
contro com o pai da menina.
      - Estamos esperando as ordens.
      - E a polcia?
      - A policia no atrapalhar.
      - Mas aposto que est ouvindo o telefonema.
      - No est.
      - Se estiver, perde tempo. Estamos telefonando dum
 orelho. Era s, por enquanto. Aguardem novo chamado.
      - Quando?
      -  noite, provavelmente. Aproveitem o tempo apre-
 ciando nossas belezas naturais. Bem-vindos ao Rio, senhores.
      Walter ouviu um rudo e tambm desligou.
       - S queriam saber se j tnhamos nos encontrado -
 disse a Rogrio. - Ficou de telefonar  noite. Ter tempo
 para ir ao banco.
       Uma batida na porta, era Walmor.
       - Ouvi tudo. Voz de. rapaz duns dezoito anos.
       - Mas no era a mesma voz que da outra vez.
       - Tem certeza?
                                                           15
      - Tenho.
      - Isso comprova que se trata mesmo de uma quadrilha
 de menores.
      Walter no concordava inteiramente.
      - Menores no teriam uma casa onde esconder os dois.
      - Isso faz sentido - admitiu o investigador. - Ainda
 mais no tendo havido um piano. Mas h grupos de menores
 que moram em barracos abandonados. Ou ento tambm h
 adultos metidos nisso.
      Rogrio ergueu-se.          -
      - Vou ao banco buscar o dinheiro. Vamos, Ana.
      Waimor saiu junto com eles:
      - Ainda tenho muito trabalho a fazer pelas ruas. Voltarei
  noite.
      Walter e Celina ficaram olhando um para o outro: j no
 havia mais nada a dizer.




          O ENSAIO GERAL PARA O RESGATE

     Os moradores da Toca reuniram-se no salo para planejar
o lance seguinte. Nariz estava mais seguro de si, sentindo que
voltara a liderar o grupo, tanto que, desta vez, ele mesmo falara
com o pai de Cludio. O Baixo, que preferira se divertir na
praia enquanto um dos pssaros quase fugia, perdera, pelo
menos na ocasio, a confiana dos demais. A voz mais aguar-
dada era a de Nariz, no qual os olhares se fixavam.
     -. Chegou o momento de arranjarmos um automvel -
disse. - E tambm o de dizer adeus  Toca.
     - Eu no sei dirigir - adiantou Baden.
    - Eu sei mas no estou a fim - disse Alis meio de lado.
    - Eu e o Baixo nos incumbimos disso - tranqilizou-o
Nariz.
    - J   roubou automveis? - perguntou Tito.
    - Sozinho, no - disse Nariz. - Roubei uns trs, com
amigos, no ano passado.
    - Eu estava junto - lembrou Pequins.
    - Sabe fazer ligao direta? - perguntou o Baixo.
76
     - Vi fazer, mas nunca fiz eu mesmo. Voc sabe?
     - No - respondeu o Baixo. -  o tipo da coisa que
s  fcil para quem entende. Conheci um cara que fazia isso
em vinte segundos. Mesmo assim o apanharam e hoje est
em cana.
     - Acho que conseguirei - disse Nariz. - No em vinte
segundos, mas em poucos minutos.
          Quando a gente vai fazer isso? - quis saber Baden.
           noite, bem tarde - respondeu Nariz. - E em segui-
da telefonaremos para o hotel.
     O Baixo preocupou-se com os detalhes; era o jeito de voltar
a comandar o grupo.
      - Onde entregaremos o primeiro pssaro?
      - Ainda no pensei nisso.
      - Mas  preciso pensar.  mais importante que roubar
 o carro.
      A pergunta preocupou a todos.
      - Talvez na Zona Norte - disse Nariz.
      - Acho que no - retrucou o Baixo. - Ser melhor
 entregar perto do Morro, onde vai ficar o segundo. Atravessar
 a cidade com um carro roubado  perigoso. Quanto menos a
 gente rodar com ele  melhor.
      - Qual dos dois entregaremos primeiro? - perguntou
 Baden.
       - A garota - disse Nariz.
       - No - reprovou o Baixo. - Entregaremos primeiro
 o rapaz. Ele j provou, l no telhado, que no colocar em
 risco a vida da menina. No far nenhuma besteira, sabendo
 que a garota ainda est em nossas mos.               -
       - Concordo - disse Baden. - E vocs?
       Todos estavam de acordo, embora o sim de Nariz foi o
  mais tardo.
       - Uma coisa me encuca - lembrou Tito. Como a
  gente vai sair com a menina? Iremos a p at o local do res-
  gate? No  dar muita bandeira?
       Nariz no soube responder e nem o Baixo se apressou.
  Queria que todos percebessem que coragem fsica no  tudo,
  quase sempre vale mais uma cabea que saiba pensar.
       Enrolado, Nariz balbuciou:
        - Bem... isso no sei. . . a gente precisa estudar.
        A cara do Baixo no era a de quem estivesse atrapalhado:
        - No vejo problema - disse, calmo. - Usaremos o
  mesmo carro para levar a garota e o moo. Por isso o local do
  resgate deve ser prximo do Morro, onde Patrcia vai estar:
  Entenderam?
        O lance no foi aprovado imediatamente Nariz procurou
  um furo.
       - Isso resolve em parte. Sempre h o perigo de nos
  apanharem quando entregarmos o rapaz.
       - No acredito muito nesse perigo, mas vamos colocar
  um olheiro.
       - Que olheiro?
       - Tereca - revelou o Baixo. - Ela ir antes e ficar
 paradona, como se esperasse o namorado. Se notar algo estra-
 nho, algum movimento da polcia, dar um sinal.
       - Que sinal? - ela quis saber, pois at aquele momento
 ignorava essa parte do plano.
       - Voc ir com qualquer coisa na cabea, um leno,
 talvez. Se houver grilo, tirar o leno. Assim a gente no
 pra o carro.
       Tito entusiasmou-se:
      -  uma boa, Baixo, voc est matando todos os grilos.
      Nariz resistia, ainda no totalmente convencido.
      - Vamos que ela continue com o leno na cabea. A
 gente pra o carro, desce com o garoto, fala com o pai dele
 e pega o dinheiro. Certo. Mas como iremos at o Morro?
Andando a p com uma mala cheia de tutu?
      O Baixo parecia gostar de perguntas embaraosas; testa-
vam sua capacidade.
      - Como disse, o local de entrega do primeiro pssaro ser
prximo ao lugar em que estar o segundo. Cem metros, duzen-
tos, trezentos, por a. Precisamos escolher os dois pontos. Acho
que a gente pode fazer isso agora.
      Nariz, no encontrando furo na teoria, passou a pensar na
prtica e nos seus perigos.
     - Vo se arriscar mais os que entregarem o primeiro
pssaro.
     - Isso  verdade - admitiu Baden.
     - Voc confia muito no plano, no? - Nariz perguntou
ao Baixo.
78
     - Confio - disse o Baixo.
     - Ento voc vai entregar o moo, enquanto eu fico no
carro com a garota.
     --Sozinho?
     - Tereca no estar por pert&? E escolheremos mais um
para ir com voc - disse Nariz.
     Os olhares fixaram-se no Baixo; se ele confiava tanto no
plano no deveria demonstrar o menor receio de incumbir-se
da parte mais perigosa.
     - Voc nem precisava dizer, Nariz. Eu ia me oferecer
- e deu uma cutucada. - Prefiro at que voc fique mais
afastado da ao.




             VISITA  CASA DA ESTRADA

     Era um grupo de barracos  margem da estrada, por onde
passavam milhares de carros e caminhes por dia, indo e vindo.
Dona Jlia, desde que se mudara para l - h tantos anos
que nem se lembrava quando -, no possua outra distrao:
ver a estrada. Muito doente para lavar roupa, sua profisso,
vivia duma penso do falecido marido que mal dava para
comer. Mexia-se pouco, o tempo todo sentada a olhar os carros
pela janela. Saia de l apenas uma vez por ms para receber
a aposentadoria, quando ento fazia suas compras.
     Tereca  distncia viu o rosto da tia  janela. Ela, que no
conhecera os pais, s tinha dona Jlia de parente. Passara a
sua infncia naquel mesmo barraco, vendo os carros e cami-
nhes e, quando a velocidade permitia, seus passageiros. Acha-
va que devia ser melhor o destino dos que partem. Ela e a tia
estavam entre os que ficavam, os que no iam a lugar algum.
 margem da estrada,  margem da vida. O mundo que pas-
sava  sua porta despertava4he, porm, urna enorme curiosi-
dade. Por isso, talvez, a vontade de saber, que fez com que
aprendesse depressa a ler e a escrever- na escolinha mixuruca
 da regio. Seu primeiro furto foi um rdio de pilha, pois s
 atravs das ondas sonoras podia viajar e conhecer o que havia
                                                               79
  alm dos barracos. Odiava-os; vira neles crianas morrerem de
  fome, e logo que cresceu, no agentou. Fez outros roubos,
 foi presa nas instituies para menores, das quais sempre fugia.
 Era quando visitava a tia e levava algum dinheiro que sobrasse.
       Dona Jlia tambm viu Tereca chegando. Chamava-a de
 T; o apelido Tereca lhe fora dado nas ruas.
       - Voc, T, que bom que veio!
       - Como vai, tia? Trouxe umas frutas - disse exibindo
 uma sacola.
       - Mas! Isso  bom mesmo! Estou com fome. Posso
 comer uma j?
       - Claro! So suas!
       Dona Jlia deu uma mordida numa das mas e perguntou
 em seguida:
      - Vai ficar alguns dias comigo?
      - Desta vez, no. Preciso voltar logo. Tia, eu no deixei
 aqui aquele leno vermelho que usava na cabea?
      Comendo a ma, dona Jlia nem respondeu, deixando
 que a sobrinha procurasse o leno.
      - Conte o que tem feito. Est trabalhando agora?
      - Se estou trabalhando? Tia, eu tenho um namorado.
 Gostaria que conhecesse ele.  um rapaz que tem muita cuca
 e vai longe. At livros j vi ele lendo.
      - Vo casar?
      - Acho que vamos.
      - O que ele faz, est empregado?
      - Pretende abrir um negcio, acho que um restaurante
ou coisa assim.
      - Ento ele tem dinheiro! - admirou-se a tia.
          Est para receber uma bolada. Mas no ficaremos
aqui. Ele pensa ir para outra cidade, talvez So Paulo.  para
onde vo esses carros todos.
     Dona Jlia olhou para a sobrinha, desamparada:
     - Ento nunca mais nos veremos.
     - A senhora se engana, tia. A gente vai pra l, se instala
e depois venho buscar a senhora.
     No dava para acreditar; era muito.
          Sempre quis sair daqui e estou velha demais para viver
sozinha. Promete que vem mesmo me buscar?
     - A promessa j fiz h muito tempo, tia.
80
    - S esperar j vai ser bom - disse dona Jlia sorrindo.
    Tereca tambm ficou feliz:
    - Encontrei! - exclamou. E amarrou o leno vermelho
graciosamente  cabea. - Agora j posso ir.
    Jlia sem se levantar abraou a sobrinha.
    - Voc vindo aqui me faz mais bem que um padre.
    - At breve, tia. No vou demorar para reaparecer.
    Jlia voltou a espiar  janela com os olhos fixos no leno
vermelho que se afastava. Em seguida retomou a ma e
continuou a mord-la com um sorriso lento e prolongado para
durar o dia inteiro.



                 O PALCO DO RESGATE
     Enquanto Baden, Tito e Pequins ficaram na Toca, guar-
dando os pssaros, Nariz, Baixo e Alis foram para o Morro
estudar o terreno. O carro teria de ficar estacionado em lugar
no suspeito, preferivelmente iluminado, perto de outros. Havia
um poto de gaslina, que o Baixo achou ideal.
     - Aqui  um bom ponto.
     - No acha que  muito  vista de todos?
     - Isso  bom. Nariz. Chamar menos a ateno parado
num lugar onde os carros costumam parar.
     - O Baixo tem razo - disse Alis, que sempre concor-
dava com ele.
     - O importante - frisou o Baixo -  no soltar a garota
aqui, para que ela no telefone do posto, mas num lugar mais
longe, onde ter de andar algum tempo at encontrar algum
que a ponha em contato com os pais ou com a polcia.
     - Vamos procurar agora o lugar do resgate - disse Na-
riz. - L tem uma igreja, o que dizem?
     - Nada de ambiente fechado - ponderou o Baixo.
      - Acha melhor que o encontro seja na rua?
      - Quando vnhamos vindo vi uma pracinha - lembrou
 o Baixo. -  logo ali. Pareceu-me de encomenda. H trs
 ruas de acesso e um descampado que d para o Morro. Mesmo
 com tudo bem pensado, s vezes azara. Por isso  bom ter
 algumas portas abertas.            -
                                                             81
     A pracinha distava quinhentos metros do posto de gaso-
lina. Viram e aprovaram.
     - Para mim est certo - disse Nariz.
     - Mas vamos seguir pelo descampado. Quero ver o
Morro. Em caso de fuga, a gente precisa saber onde pisa. J
pensou se tivermos de nos esconder? Sem saber onde?
        Eu saberia - respondeu Alis. - No casebre dum
amigo nosso.
     - Que amigo? - perguntou Nariz.
     - Sebo. Ele mora l em cima.




          SE ESCREVEM CARTA, ESTO VIVOS

       Cludio e Pai, sentados sobre o saco de estopa, no conse-
 guiam evitar que a angstia aumentasse de momento a mo-
 mento. Ficavam  espera de passos que poderiam trazer not-
 cias. Mas o que ouviam, distante, era o violo de Baden e
 sua voz de cantor.
       - Ele tem um bom repertrio - disse Cludio. - Agora
 est cantando o Samba do avio, uma das msicas prediletas
 do meu pai.
      - Os outros o chamam de Baden, que  um violonista.
      - Eu sei. Ouvindo-o assim ningum diria que  um mau
 sujeito.
      - Mas o pior  aquele que o perseguiu no telhado. Ele
me d medo. No porque tenha uma arma, mas me d muito
medo.
      Cludio mais uma vez tentou tranqilizar a companheira:
      - Se at agora no nos fizeram nada de mal, no faro
mais. Querem s o dinheiro do resgate.
      O violo de Baden parou de tocar e ouviram vozes no
corredor. Os dois ficaram tensos,  espera. Afinal a porta foi
aberta e entraram o Baixo e o Nariz. O Baixo trazia uma tbua,
uma caneta e um bloco de papel.
      - Queria que escrevesse uma carta - disse a Cludio.
- Pegue esta esferogrfica. Apie o bloco na madeira.
      - O que devo escrever?
82
         A inteno  provar que vocs esto vivos - disse o
Baixo. - E que devem fazer o que mandarmos sem pr a
polcia na jogada. Diga que ao recebermos o resgate, apenas
um ser entregue. O outro, meia hora depois, quando estiver-
mos longe. Portanto, se nos aprontarem alguma, mataremos o
segundo. Deu para entender?
     - Acho que deu - respondeu Cludio.
     - Escreva voc tambm qualquer coisa - disse o Baixo
a Pat. - Que est com muita saudade, por exemplo. O resto
 conosco.




     Uma hora depois, um menino simptico, duns dez anos de
idade, ia passando perto .do hotel Royal quando ouviu um psiu.
Parou. S viu a mo que lhe passou cinco mil cruzeiros e uma
carta.
     - Pegue os cinco s pra levar esta carta  portaria da-
quele hotel.
     --S?
     - S, nada, tem mais cinco pra depois da entrega. Agora,
voe.
     Ao receber a carta, um dos funcionrios da portaria fez
um sinal ao investigador Waimor, que estava no saguo do
hotel. Tinha acabado de chegar da rua.
     - Uma carta para o pai do garoto seqestrado.
     Walmor apanhou a carta, perguntando:
                                                            83
      - Quem entregou?
      - Um menino magrinho; ele virou  direita.
      Waimor correu  rua. Viu logo o menino, olhando para
 todos os lados, como se procurasse algum. O investigador
 aproximou-se dele.    -
      - Voc que entregou esta carta no hotel?
     - Fui.
      - Quem lhe mandou?
     - Um moo, ele me deu cinco mango e prometeu dar
mais cinco.
     - Olhe bem, veja se v ele.
     O menino olhava  direita,  esquerda e para a praia,
decepcionado.
     - Acho que sumiu.
     - J conhecia ele?
     - No, senhor. -
     - Como ele era?
     - Um garoto.
     - Descreva a fisionomia dele.
     - Nem deu tempo de olhar pro cara. S me lembro da
camisa.
         Por que da camis?
     - Por causa do que estava escrito.
     - O que estava escrito?
     - BEM-VINDOS AO RIO.  s do que lembro.
     Walnior entregou a carta a Walter, que no sabia se a
abria ou a passava para sua mulher. Abriu-a, porm, ele mes-
mo. Leu em voz alta.
        Eu estou bem. Por enquanto. E nada acontecer a
        mim ou  Patrcia se seguirem as instrues deles.
        Por favor, no permitam que a polcia aparea no
        momento do resgate. Eles esto prevenidos e vo
        soltar um s para se garantirem. Depois que estive-
        rem em segurana, meia hora mais tarde ou menos,
        soltaro o outro. Se algo acontecer aos que forem
        buscar o dinheiro, dizem que mataro um de ns.

                                Muitas saudades do Cludio
84
    Aps um espao havia um recado de Pat, que Walter tam-
bm leu em voz alta.
             Estou escrevendo para que saibam que estou viva.
         Faam o que esto pedindo e logo estarei com vocs.
         Queria escrever mais, mas no h tempo agora.

                                Um beijo da Pat para todos

    - Quem entregou? - perguntou Walter passando a carta
 Celina. -
     - Um garotinho que ia passando. Deram-lhe a carta e
cinco mil cruzeiros - disse Waimor. - Foi um rapaz que usava
uma camisa com uma legenda: BEM-VINDOS AO RIO.
      - Parece que a polcia deve se manter mesmo por fora
disso - disse Walter.
      - Tem nossa palavra- A polcia s agir se descobrirmos
o esconderijo deles antes do momento do resgate.
          J conseguiram alguma pista?
      - Hoje, o dono dum botequim, ao ver o retrato de Clu-
dio, teve a impresso de que o rosto no lhe era estranho. Um
rapaz, parecido com ele, entrara em seu estabelecimento para
pedir uma informao. Queria saber onde era certo museu.
      - O do Catete, isso deve ter sido antes de conhecer Pa-
trcia.
      - No, foi depois. Perguntei ao dono do botequim se ele
procurava o museu do Catete, e ele respondeu que no, pois
nesse caso saberia informar, j que  do bairro.
       - Ento, como  que ele no viu a garota?
       - Pode ser que ela no entrou no botequim.
       - Acha que isso pode servir como pista?
       - Pode, se for ligada com outra coisa. Uma indicao
 sozinha quase sempre no esclarece nada. Mas quando se junta
 a uma segunda ou a uma terceira, s vezes soluciona um enigma
 que parecia sem soluo.
       Tocou o interfone. Segundos depois, Celina abriu a porta;
 eram os pais de Pat. Rogrio trazia uma pequena mala preta.
       - J tenho o dinheiro - disse.     Alguma novidade?
       - Apenas uma carta que chegou  portaria do hotel. Con-
 firme a letra de sua filha.
                                                              85
     Rogrio e Ana leram a carta.
     -  a letra dela sem dvida - disse Ana. - Ainda bem
 que esto vivos. Mas estariam bem alimentados?




               FCIL ROUBAR UM CARRO?

       O Baixo e a Tereca levaram algumas frutas e meia dzia
 de cocadas para os pssaros. Ele achou que seria suspeito com-
 prar comida em restaurante. Ficaram algum tempo sozinhos
 no salo, quando ela lhe mostrou o leno vermelho.
       - Sabia que tinha um no barraco de tia Jlia.
       - No contou nada a ela, no?
       - Contei que tenho um namorado; menti que um dia a
 levaremos para So Paulo. A iluso  a nica coisa grtis que
 resta no mundo.
       So Paulo - murmurou Baixo. - L ningum nos co-
 nhece. Estaremos to misturados com o povo que nem ns nos
 lembraremos mais de quem somos!
      Nariz, Baden e Alis entraram, os passos ecoando no casa-
 ro vazio.
      - Chegou a hora de fazermos a caranga - disse Nariz.
- Quem fica e quem vai?
      - S vamos trs - decidiu o Baixo. - Eu, voc e Alis.
Nisso, muita gente atrapalha.
      - Depois de fazer o servio a gente telefona para o hotel.
      -- Telefona, no  bom andar por a com caranga afanada.
      Saram para a rua a passos ligeiros, uma pressa para dis-
farar a inteno. Estavam, porm, nervosos. Coragem no
basta para substituir experincia.
      - Que marca ser melhor? - perguntou Nariz.
     - Sei que deve ser grande. Num Fusca no caberamos
todos ns. Nem pequeno nem carro de luxo, que o povo pra
pra olhar. Vamos pros lados dum cinema. Assim a gente sabe
que o dono est sentadinho l dentro.
     Andaram muitos quarteires e pararam nas vizinhanas
dum velho cinema. Havia, porm, muito movimento. Numa
rua paralela viram um Opala dando sopa. Apenas Nariz apro-
86
ximou-se, mas surgiu o dono, abriu a porta e entrou. Duma
esquina observaram uma fila de carros estacionados. Passando
rente deles, Alis tentou abrir as portas. Todas fechadas.
     - Ser que nenhum cuca fresca esqueceu de fechar a
porta?
     - s vezes fecham a porta e esquecem o vidro aberto -
disse Nariz.
      - Mas o tempo est um pouco pra chuva, ningum esque-
ceria - ponderou o Baixo.                 -
      - Dizem que  fcil com um araminho.
      - S  fcil para os que sabem - disse o Baixo. - Va-
mos continuar procurando.
      Uma hora depois j tinham perdido a conta do nmero
de carros que tentaram abrir. Afinal Nariz encontrou um Che-
vette aberto perto duma mercearia. Entrou sozinho para fazer
a ligao direta, enquanto Baixo e Alis aguardavam na es-
quina. Nariz demorava, o que para eles era pior que dor de
dente. Depois dum tempo Nariz saiu do carro e foi ao encon-
tro deles.
      - Esta  para rir mais tarde.
      - No conseguiu fazer, a direta?
      - Consegui, mas est sem gasolina. Por isso o deixaram
 a com a porta aberta.
      - Vamos continuar ou vamos desistir? - perguntou
 Alis.




 CLUDIO E PAT: CONFIDNCIAS  LUZ DE VELA
     En3 sua cela-despensa, Cludio e Pat mastigavam cocadas.
Tereca dera-lhes uma vela acesa.
     - Vamos ser libertados hoje? - perguntou-lhe Pat.
     - Isso  com Deus.
     Quando fecharam novamente a porta, Pat disse:
     - No sei se  melhor ou pior com essa luz.
     -  melhor, posso ver voc.
     Sem distinguir se aquilo era uma galanteria ou apenas uma
frase, Pat comentou:
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       - Ainda bem que estou aqui com voc. Se estivesse sozi-
 nha, no sei se suportaria. At ento o maior susto que tive
 foi quando ca e destronquei o brao. Pensei que o tivesse
 fraturado.
       - Eu tambm nunca levei grandes sustos, mas me abor-
 recia  toa. Quando sair daqui acho que vou dar mais valor a
 uma poro de coisas. Talvez passe at a gostar de jil, eu
 que detesto jil.
       Pat conseguiu esboar um sorrizinho e perguntou em se-
 guida:
      - Como  a sua namorada?
      - No tenho namorada - respondeu Cludio.
      - Mas j teve.
      - Tive uma sim, colega da escola. Mas ela mudou de
cidade. No dia da despedida, ela chorou muito e pediu que
no deixasse de responder a suas cartas. E na mesma semana
me mandou uma carta muito apaixonada e uma poesia.
      - Voc respondeu  carta?
      - Claro. Mas ela no tomou a escrever.
      - Sua carta pode ter sido extraviada.
      - Quem disse que escrevi s uma. Escrevi cinco.
      - Por que ela teria agido assim?
      - Talvez por causa daquele ditado: longe dos olhos, longe.
do corao - Pat riu, mas era a vez de Cludio fazer sua per-
gunta: - E voc, tem namorado?
       luz da vela, trmula, a hesitao de Pat pareceu maior,
espichando a ansiedade de Cludio.
     - Eu no sei.
     - Como no sabe?
     - H um rapaz que mora em nossa quadra; a gente vai
a bailes e cinemas. Quase sempre me telefona. Mas agora eu
pergunto: Se  meu namorado, por que ainda no me lembrei
dele uma nica vez nesses dias? Deveria lembrar, no acha?
     -  uma pergunta que s voc pode responder.
     - Acabaram as cocadas.
     - Oua, o tal Baden est tocando outra vez. Esta cha-
ma-se Corcovado. Eu gosto.
88
               UMA FUGA DESESPERADA
     Nariz, Baixo e Alis j concluam .que ningum mais no
Rio de Janeiro deixava o carro sem antes fechar bem as portas
e os vidros, quando Nariz deu sorte e a porta de um Corcel
se abriu. Alguns transeuntes passavam pela rua, no bairro de
Ftima. O cansao vencera a prudncia. Nariz entrou na ca-
ranga e comeou a trabalhar na ligao direta. Desta vez o
Baixo e o Alis nem foram at a esquina. J era muito tarde,
precisavam agir depressa.
     - No estou acertando - disse Nariz.
     - Muita calma - aconselhou o Baixo. - Faa de conta
que  apenas uma brincadeira.
     Alis, vendo Nariz muito atrapalhado, acendeu um cigarro.
O Baixo assobiava uma msica, olhando para o alto. Os dois
com dio do tempo, que no passava, pingando lentamente os
segundos. E nada de ouvirem o ronco do motor. Dentro, Nariz
trablhava, afobado, torcendo fios.
     - A polcia! - avisou Alis.
     O Baixo olhou e confirmou: um Fusca com trs policiais
fardados ia parando.
     - Saia! - ordenou a Nariz. - J nos manjaram.
     Nariz saiu depressa- do Corcel, enquanto Alis arrancava
 o gorro da cabea e enfiava-o no bolso. Era de estimao,
 temia perd-lo numa carreira. O Fusca parou no meio da rua,
 mas antes que os policiais sassem Baixo, Alis e Nariz j cor-
 riam. Viraram a primeira esquina na toda, Nariz um pouco
 atrs. No meio da quadra pararam.
      - Est vendo eles? - perguntou o Baixo.
      - No - respondeu Alis. - S quiseram assustar.
      Estavam enganados; o Fusca dobrava a esquina. Tinham
 preferido fazer a perseguio de carro.
      - Eles! - berrou o Baixo.
      - No adianta correr, vo nos pegar - disse Alis.
      A Nariz precipitou-se: puxou o revlver e disparou dois
 tiros contra o carro da polcia, que parou a uns cinqenta
 metros.
      - Besteira! Agora tambm vo atirar!
      Alis viu um escuro espao baldio do outro lado da rua.
 No sabia onde ia dar aquilo, mas atravessou, correndo. Nariz
                                                              89
/   -
           \
        ' _\ -
e Baixo foram atrs. Antes de alcan-lo j ouviram tiros.
Diante deles tudo preto e o rudo de vegetao pisada: O ter-
reno teria o tamanho dum campo de futebol, mas no bom
para correr devido aos buracos. Viram uma luz de mercrio.
      - D pra outra rua! - exclamou Nariz.
      - Pode ser que deram a volta - alertou Alis quando os
trs, ofegando, chegavam do outro lado. - Melhor espiar antes.
      Dois tiros espocaram na escurido.
      - Ainda esto no baldio! - berrou Nariz. - Vamos
correr.
       J na rua paralela voltaram a correr, Nariz  frente; no
era comprida, mas antes que a dobrassem o carro da polcia
apareceu na outra ponta. O Baixo tropeou em qualquer coisa
e ficou para trs. Sentiu que no poderia continuar correndo.
 Parou totalmente,  porta dum edifcio de poucos andares. O
 veculo policial passou por ele. Por alguns momentos ainda viu
 Nariz e Alis em disparada. A passos lentos dirigiu-se a uma
 rua de maior trnsito, onde sem dificuldade apanhou um txi.
 Desceu na esquina da Toca,  espera dos companheiros, mas
 sem saber o que lhes havia acontecido. Preenchia a espera com
 uma pergunta: Se prenderam Nariz e Alis, o que devo fazer?
 Decidiu que nesse caso soltaria os pssaros, mesmo se Baden e
 os demais se opusessem.
       Uns dez minutos depois, algum com um gorro aproxi-
 mou-se.
       - Onde est Nariz? - o Baixo perguntou. - Apanha-
 ram ele?
        - No sei, nos separamos. E voce, como escapou?
        - Simplesmente parei, torci o p.
        - Eu vi um grupo de pessoas e me misturei com elas.
        - Acha que grampearam o Nariz?
        - A gente logo vai saber-- disse Alis. - Vamos espe-
  rar. Mas se ele no aparecer, eu caio fora dessa. Ele pode dar
  o servio e a estamos fritos.
        Espera curta. Reconheceram  distncia a camiseta de
  Nariz, que caminhava rente  parede. O encontro foi saudado
  com uma gargalhada. Mas a de Nariz era uma gargalhada
  cansada.
                                                              91
          Foi por um quase. Quando o carro j me alcanava,
 virei, correndo em sentido contrrio. Os tiras ainda deram uns
 tecos, mas o que dirigia no era bom de manobras. Tive tempo
 para entrar noutra rua. E sabem o que fiz? Peguei um nibus.
      - E agora, como vamos fazer? - perguntou Alis.
      - No sei, no - disse Nariz. - Essa de puxar uma
 caranga acho que melou. O que diz, Baixo?
      - Pior se um de ns tivesse se machucado. Mas amanh
 a gente acerta. J sei como devemos fazer para no nos com-
 plicarmos com chaves e ligaes diretas.




           UMA CAMISETA SERVE DE PISTA?

       Os pais de Cludio e os de Pat aguardaram at a madru-
 gada o telefonema dos seqestradores. Ana e Rogrio acaba-
 ram tambm se hospedando no Royal para facilitar os contatos.
 Na manh seguinte logo cedo o investigador Walmor apareceu.
       - Nenhum telefonema?
       - Nenhum - respondeu Walter. - Por que ser que no
 ligaram?
       - Acho que sei por qu - disse o investigador. - Ontem
eles tiveram um fracasso. Tentaram roubar um carro e no deu
certo. Quase que a polcia os apanha.
      - Como sabe que foram eles? - quis saber Rogrio.
      - Bem,  uma suposio. Os que tentaram o roubo eram
trs rapazes, um deles usando uma camiseta igual  do que
entregou a carta ontem. Em ambas estava escrito: BEM-VIN-
DOS AO RIO.
      - Onde foi essa tentativa?
      - ,Perto do Catete. Acho que eles vivem nesse bairro.
L, pivetes tambm assaltaram uma loja e roubaram uma penca
de camisetas. Todo nosso esforo est se concentrando por l.
      - Por que querem um carro? - perguntou Ana.
      - Para a hora do resgate, uando entregarem os dois e
apanharem o dinheiro. Isso no se faz de nibus.
92
     UMA CARTA FEITA DE LETRAS DE JORNAIS
           Sebo no conseguia trabalhar direito. S pensava
nos dois pssaros e apostava que Nariz os mataria se as coisas
no sassem bem. Lia os jornais, levava um radinho de pilha
para a rua e quando estava em casa a primeira coisa que fazia
era ligar a televiso nos noticirios.
      Sua me notou a apreenso.
      - O que est acontecendo, filho?
      - Nada. O que tem a pra comer?
      - Voc acabou de comer dois pes com manteiga.
      - Continuo com fome.
      - Sabe o que  isso? Nervoso. Vi um mdico falar na
televiso que muita gente quando tem problemas s quer mas-
tigar. O que houve? Conte. No confia em mim?
       Sebo olhou-a seriamente.
      - Promete no falar com as comadres? Se a coisa vazar
 me matam;
       - Prometo.       -
       -- Nem para o velho?
       -  to grave assim?
       Sebo olhou para o televisor, que exibia os retratos de
 Claudio e Pat.
       - Sei onde esto aqueles dois.
       - A menina e o menino seqestrados?
       - No vi eles, mas sei onde esto. Quiseram que eu par-
 ticipasse, por isso me afastei. Aquele que veio, o Alis, me
 procurou para saber se eu ia manter o bico fechado. Disse que
 sim, e ele foi embora numa boa.
       - O que pretende fazer?
       - Nada, apenas a coisa est incomodando.
       - Est certo, se der parte  polcia pode se implicar.
 Voc tambm j fez das suas e conhece o pessoal.
        - &m... eu no faria isso pessoalmente;
        - Se escrever uma carta reconhecero sua caligrafia. 
 quase como assinar.
        Sebo olhou para o teto como se nele estivesse escrita uma
  sugesto.
                                                               93
       - Isso pode ser feito com palavras de jornais coladas
 numa folha de papel. Acho que bastaria o retrato dos dois, o
 endereo onde esto, e embaixo: um vizinho.
       Dona Isaura gostou, a idia confirmava a regenerao do
 filho.
      - Eu poderia pr numa caixa do correio.
      - O correio demora no mnimo um dia ou dois. Nesse
 tempo alguma coisa pode acontecer.
      - E se eu deixasse a carta na caixa de esmolas da igreja?
      Metade boa, metade m.
      - A. igreja daqui? No, perigoso pra mim.
      - Ento da igreja do bairro onde eles esto.
      - Melhorou.
      - E se a polcia no fizer nada at amanh, a gente tele-
 fona. O padre de l no me conhece.
      Aprovado. Sebo pegou o jornal.
      - Me, a tesoura.




          SONHOS DUMA NOITE DE VERO
      O grupo do casaro passou o dia andando dum lado e de
 outro sem sair  rua. Na parte da manh apenas Tereca saiu
 para comprar jornais e alimentos para os pssaros. A inquie-
 tao entre eles era muito maior que nos dias anteriores. Se-
gundo os jornais, a polcia estava incansvel no caso e possua
alguns indcios animadores.
     - Que dicas so essas? - perguntava Baden.
     - Tudo chute - garantia Nariz. - Ela no tem dica
nenhuma.
     - Muita gente j viu a gente entrar aqui - disse Tito. -
Gente que sabe que o casaro t abandonado.
     Nariz fingia no se impressionar:
     - Amanh no estaremos mais aqui. Cada um seguir
sua trilha. Vo pensando nisso, pivetes. Depois do pagamento
ser cada um por si Deus por todos.
     Baden perguntou a Tito:
         O que vai fazer com a gaita, marginal?
94
     - Vou comer todos os doces que no comi nesses treze
anos. Primeiro entro numa confeitaria e passo l duas horas.
     - Depois?
     - Tenho uma irm casada no subrbio. Darei a metade
pra ela. Talvez entre numa escola.  o que ela sempre quis.
      Baden tirou a tarde para entrevistas:
      - Voc, Baixo?
      - Eu e Tereca vamos sair do ar. Temos planos. Coisas
burguesas.
      O violonista riu:
      - O que quer dizer isso, burguesas?
      - Ouvi a palavra na televiso. No sei direito o que
 significa, mas me parece boa.
      Baden voltou-se para Alis:
      - Voc, Alis.
       - Alis ainda no pensei nisso.
       Nariz falou antes que Baden lhe perguntasse:
       - Eu espalharei o dinheiro numa cama e dormirei em
 cima dele. A pausa que refresca.
       Baden entrevistou Pequins:
       - Voc?
       - No sei pra onde ir     disse o caula.
       - No tem pais ou parentes?
       - Eu? Imagine!
       - Nem um amigo da famlia?
       - Eu fui deixado na rua, parece que numa lata de lixo.
  Da lata, fui pra uma creche e depois pros institutos. Depois
  fugi. Depois mais nada.
        Nariz perguntou:
        - E voc, msico?
        - Bahia! - respondeu o violonista, cantarolando e acom-
  panhando-se ao violo: - Oh! que saudades sinto da Bahia...



       UM RECEIO A MAIS PARA OS PASSAROS
     Na cela-despensa, Cludio e Pat s tinham os olhos, um
 do outro, para olhar. A imobilidade velha daquelas paredes
 e daquela porta cansara, e o tempo parecia estar preso. alge-
                                                             95
 mado com eles. Seus olhos, o que restava de vivo naquele am-
 biente, estes sim, mudavam, ora expressando angstia, ora im-
 pacincia, ora esperana, ora medo.
      - Acho que dentro de algumas horas estaremos livres -
 disse Cludio.                 -
      -- Sabe do que tenho medo? De que apanhem o dinheiro
 e nos deixem aqui at . que nos descubram. Acho que morre-
 ramos de fome e sede.
      Essa possibilidade assustou Cludio, que reagiu:
      - Nossos pais no entregaro o dinheiro se no nos sol-
 tarem. Nem pense nisso, Pai.
      Mas penaram, e era um receio a mais, fcil de identificar
 nos olhos dos dois.




          UMA CARTA PARA DEUS ENTREGAR
     Dona Laura fingia rezar, apenas esperando que os poucos
fiis daquela hora conclussem suas rezas. Quando restava
somente uma velhinha, ajoelhada num dos primeiros bancos,
ela aproximou-se da caixa e pela abertura enfiou a carta. A
que horas e quantas vezes por dia retiravam as ofertas deposi-
tadas? J cumprira sua misso. Deixou a igreja apressada-
mente.       -




            UNS ESPERAM, OUTROS AGEM
     No hotel Royal os pais de Cludio e os de Pat continuavam
aguardando o telefonema dos seqestradores. Tia Elisa passam
algumas horas com eles e depois foi embora. A televiso per-
manecia o tempo todo ligada, e os quatro imobilizavam-se,
atentos s primeiras imagens dos telejornais. Os retratos de
Pat e Cludio apareceram no vdeo diversas vezes, porm sem
nenhuma informao tranqilizadora. Ana sentiu-se mal e teve
de tomar calmante. Celina, que tambm no era nenhuma for-
taleza, precisou confort-la.
96
     Walmor movimentou-se o dia todo. De quando em quando
telefonava para o investigador de planto, no hotel. Falara com
 dono da loja assaltada. Um de seus funcionrios, dias aps
 assalto, reconhecera um dos jovens assaltantes nas ruas do
bairro. Tinha um nariz grande. Outros estabelecimentos cir-
cunvizinhos tambm haviam sofrido assaltos. Com uma lista
no bolso. Waimor visitou alguns. Nem todos os proprietrios
tinham tido contato com os delinqentes. Em muitos casos
entraram depois das portas fechadas. Mas uma mocinha, que
 servia no balco duma lanchonete, e que teve de abrir a regis-
 tradora sob ameaa, lembrou:
      - Um era baixo e encorpado, parecia comandar os outros.
      - Em quantos eram?
      - Alm desse baixo, havia um que usava gorro, meio
 loiro, e um menor, treze ou quatorze anos, que ficou na porta.
 A este chamaram pelo nome, Tito. No deixaram um cruzeiro
 na caixa.




     Walmor saiu da lanchonete j com uma certeza: eles mo-
 ravam no bairro; e uma pergunta j gasta de tanto repetir:
 Em que tipo de casa se reuniria um grupo de menores margi-
 nais? Mesmo morando em lugares diversos, teriam um local,
 secreto, para esconder os seqestrados. Walmor j exclua as
 favelas do naipe de habitaes suspeitas. Manter duas pessoas
 num crcere privado de madeira parecia improvvel. Estariam
                                                              97
 sediados numa casa de cmodos, com a cumplicidade dos pro-
 prietrios? Desde o incio da tarde, casas como essas, do bairro
 do Catete e adjacncias, estavam sendo visitadas. O delegado
 do distrito lembrara pores, muitas vezes alugados at ingenua-
 mente para delinquentes. Todas as residncias da regio que
 tivessem pores comearam a ser checadas. O que faltava?
 O qu?




     ACABARAM AS PALAVRAS, COMEA A AO
     Noite.
     A psicloga Olinda Ramos ia encostar seu Opala numa
das ruas da Lapa quando lhe encostaram na cabea a ponta
dum cano de revlver.
     - Desa calmamente - disse-lhe Nariz. - Seu carro rea-
parecer ainda hoje e sem nenhum estrago. Vamos apenas dar
um passeio pela praia.
     A moa desceu, quase sem reao.
     Nariz, Baixo e Alis entraram no Opala.
     - Se eu fosse voc nem avisava a polcia - aconselhou
o Baixo. - Considere isso apenas um emprstimo.
     Mal o carro saiu, a psicloga caminhou meia quadra,
entrou num restaurante e telefonou para a polcia.


     Os pais de Cludio e os de Pat estavam cansados de espe-
rar quando o telefone tocou. Walter atendeu.
     - O pai de Cludio?
     - Sim.
     - A coisa vai ser esta noite. J tem os duzentos?
     - Tenho.
     - Queremos que s uma pessoa comparea no local: o
pai da garota.
     - Por que s ele?
     - Para que ele no faa besteira. Vamos entregar apenas
o rapaz nesse encontro. O seguro morreu de velho, no? A
menina a gente solta um pouquinho depois.
98
     - No podiam entregar logo os dois? A policia no vai
aparecer.
     - Isso j est resolvido, no vamos gastar saliva. Agora
tome nota do local. O negcio vai ser s dez e meia. Pegue
lpis e papel.

     A voz era de Alis, o grupo queria que soubessem que se
tratava duma quadrilha. Assim teriam mais cuidado. Mas o
Baixo ficou a seu lado no orelho. Voltaram para o Opala.
     - Vamos agora para a Toca - disse o Baixo.         Mas
no estacione em frente. Deixe na ruazinha ao lado.


     Baden e os demais estavam inquietos  espera do trio.
Pequins s queria saber de beber gua. Quando ouviram o
sinal, o violonista abriu a porta.
     - Como foi tudo?
     - Legal - respondeu Nariz. - Temos um Opala.
     - Machucaram algum?
     - Foi na maciota. Arrumou a cordinha?
     - Arrumei.
     Reuniram-se no salo. O Baixo tinha algumas palavras
a dizer.
     - Prestem ateno! No Opala iremos eu, Nariz. Alis e
os pssaros. Alis sentar atrs, junto  porta, do lado esquer-
do. A garota na porta da direita e o garoto no meio. Eu
dirijo e Nariz fica com o revlver voltado pra eles, como se
conversassem. Clarinho?
      - Fale agora da turma do apoio - pediu Baden.
      - Vocs vo num txi, antes. Tereca fica no lugar do
 resgate. No v esquecer de tirar o leno da cabea se vir as
 coisas mal paradas.
      -  melhor que Tito fique com ela - interviu Nariz. -
 A moa e seu irmozinho. Assim afasta algum paquerador
 chato.
      - O mesmo txi - prosseguiu o Baixo - deixa o Baden.
 e o Pequins no ponto do encontro geral, onde dividiremos
 a grana.
                                                             99
       Nariz retomou a palavra para acrescentar novo detalhe
 ao plano.
      - Quando o Baixo e o Alis descerem para fazer a pri-
 meira entrega, eu pego a direo, dou uma carona  Tereca e
 ao Tito e vamos nos reunir a vocs.
      O Baixo estranhou:
      - No tnhamos acertado isso.
      - Eu ficarei com Tereca - disse Nariz. - Se voc ban-
 car o esperto com o dinheiro, eu queimo Patrcia e sua doce
 namorada.
      - Quer dizer que vou de refm? - perguntou Tereca,
 rindo.
      - Mais ou menos - disse Nariz.
      Baden tinha uma pergunta meio gaguejada para fazer:
      - E se a polcia aparecer e prender o Baixo e o Alis?
 O que a gente faz?
     Nariz fez questo de responder esta.
     - Se o Baixo e o Alis demorarem mais de cinco minutos
eu liquido a menina.
     -- Besteira - disse o Baixo. - Acho que nesse caso 
libertar a garota e fim.
     - Eu no vou pr o p na estrada sem uma desforra antes
- disse Nariz. - Mas acabemos com essa conversa. A coisa
ficou marcada para as dez e meia. Acho que o segundo escalo
deve pegar o txi s vinte para as dez. Ns partiremos uns
quinze minutos depois. Concordam com os horrios?
     - Bem calculado - aprovou o Baixo, preocupado com
o que Nariz pudesse fazer se o plano no funcionasse. - Agora.
vamos fazer um mapinha para que a turminha de apoio desa
em lugar certo.


    Assim que os seqestradores desligaram o telefone, Wal-
mor, que ouviu tudo junto  telefonista, apareceu no aparta.
mento.
    - Ouviu? - perguntou Walter.
    - Sim.
       Era outra voz, a terceira. So um bando mesmo.
    O pai de Pat renovou uma exigncia:
100
     - Promete que a polcia no vai intervir?
     - A promessa  do nosso delegado - disse o investiga-
dor. - A caada s comear depois da libertao de Patrcia,
creia. Alis j temos uma boa indicao. Trs menores rouba-
ram um Opala branco. Tudo leva . concluso de que foram
eles. O tal da camiseta do BEM-VINDOS AO MO estava
entre eles.
     - E quanto ao esconderijo? - perguntou C.elin.
     - H mais de vinte investigadores procurando. De hora
em hora nosso delegado recebe informaes. Percorremos pen-
ses, casas de cmodos, pores e nada ainda.
     - Vocs procuraram em casas abandonadas? - pergun-
tou a me de Cludio.
     Os olhos do investigador brilharam.
     - Casas abandonadas! No havia pensado nisso! Com
licena, vou telefojiar  delegacia.  uma possibilidade a mais.

Baden parou um txi. Ele. Tereca,Tito e Pequins entra-
 ram. O Baixo aconselhou-os a conversarem sobre bobagens e
 que nenhum citasse o nome ou apelido dos outros, a no ser
 falsos.
       Na Toca o Baixo decidiu ter uma conversa com os ps-
 saros. Assim que abriu a porta, disse-lhes:
  - - Estamos no finzinho. Vamos soltar vocs.
       - Nossos pais j pagaram o resgate?         perguntou Pat.
       - No, ainda. Iremos nos encontrar com eles. Primeiro
 soltaremos Cludio, depois voc. Mas tenham juzo. Nada de
 tentar fugir ou de chamar a ateno de pessoas nos outros car-
 ros ou nas ruas. Se merecerem nota dez, ningum se machu-
 car. Prometemos entregar vocs a seus pais vivos e sem
 arranhes.
        - Quando isso vai ser?
    - J - disse o Baixo.
      ..Nariz, que havia sado, encostou o Opala  porta da Toca..
 Quando viu pouco movimento, buzinou. Pat saiu ladeada pelo
 Baixo e por Alis. Sentaram no banco traseiro, Alis do lado
 esquerdo. Com uma cordinha amarrou, sem muita firmeza,
 as pernas de Pat, pouco acima dos tornozelos.
                                                               101
     - Isso  para no tentar fugir. Mas voc  inteligente,
nem est pensando nisso.
     Baixo e Alis voltaram para a Toca. Haviam deixado
Cludio preso na cela-despensa. Mas s saram do casaro
quando ouviram nova buzinada. Cludio e Alis acomoda-
ram-se no carro, este j com a cordinha para prender os torno-
zelos do seqestrado. Em seguida, o Baixo sentou-se direo,
enquanto Nariz, sentado a seu lado, virou o corpo todo para o
banco traseiro, como se mantivesse uma conversa animada com
os trs. O Baixo ps o carro em movimento.
     Sorrindo, Nariz dizia a Cludio e Pat:
     - Um movimento suspeito e dou um tirinho. Mas 
melhor relaxar. Est tudo bem. Aproveitem para conhecer a
cidade.  maravilhosa, no? Sabem, fiquei parado quando
cheguei.




                  A PRIMEIRA ENTREGA
      Um txi levou o pai de Pat ao ponto do resgate. O moto-
 rista era da polcia, e ele sabia. No podia correr o risco de
 lhe roubarem a maleta com os duzentos milhes. O mesmo
 txi, de bandeira baixa, faria depois algumas voltas pelo quar-
teiro. Essa era toda a participao policial permitida pelos
pais dos seqestrados.
      O txi deixou Rogrio no ponto dez minutos antes da hora
marcada. Logo ao descer, as nicas pessoas que viu foi uma
mocinha com um leno vermelho na cabea de mos dadas
com um garoto. Pareciam esperar por algum, impacientes.
Apenas o menino pareceu not-lo. Minutos depois foram at
a esquina.
      Rogrio fumava pouco, mas desde que entrara no txi j
consumira quatro cigarros. O txi que o deixou ali logo passou
de novo. Do outro lado da rua, um bbado andava com difi-
culdade. Parado diante duma casa cujas luzes se apagaram,
ele sabia que aqueles seriam os mais lentos e terrveis minutos
de sua vida, mas pensava tambm no sofrimento de sua mulher
102
e dos pais de Cludio. A ansiedade piorou quando viu em seu
relgio que passavam dois minutos das dez e meia.
      Procurou empurrar o tempo observando o bbado, que
quase no saa do lugar, e os raros carros que passavam. No
haviam escolhido um local deserto, apenas pouco movimentado.
Ao olhar para a esquina, no viu mais a mocinha e o menino.
Concentrou sua ateno naquela direo. Um Opala branco,
lento, cruzou a esquina. Teve a impresso de ver a menina do
leno vermelho dentro dele.
      Ento, o momento.
      Aproximaram-se dele trs rapazes. Dois conduziam o do
meio pelo brao. Um era baixo e o outro usava um gorro verde
 cabea. Reconheceu pelas fotos: o do meio era Cludio.
      O mais baixo falou:
      -  o pai de Patrcia?
          Sou.
      - Este  o Gudio. A maleta - Rogrio entregou-a. -
 Pesadinha, no?
      - Quando soltam minha filha?
      - Primeiro vamos contar e examinar o dinheiro. H um
 derrame de notas falsas na cidade. Se ningum nos perseguir
 a ter de volta em meia hora.
      Sem dizer mais palavras. Baixo e Alis afastaram-se, an-
 dando o mais depressa possvel. Do outro lado da rua o bba-
 do ficou mais lpido, apressando os passos. As luzes da casa
 que haviam se apagado acenderam-se e dela saram dois ho-
 mens. Dirigiram-se a Rogrio.
       - Somos da polcia. No podamos deix-lo totalmente
 sozinho-- e a Cludio: - Voc est bem, rapaz?
           Estou, sim.
       - - E -a menina, onde est?
       - Num Opal branco que me trouxe. Mas, por favor,
 no o persigam. O plano deles  soltar Pat assim que se sintam
 em segurana.
       - -No faremos isso - garantiu o investigador, dando um
 pouco mais de tranqilidade ao pai de Pat.
    - Rogrio apontou o bbado, j bem longe.
           Aquele homem  da policia?
      - -- , sim - confirmou um dos investigadores. - Mas
  vai apenas espiar, no far nada.
        - -                                                 103
     O txi que trouxera Rogrio brecou perto deles.
     - J estiveram aqui? - perguntou o motorista.
     - J - respondu o investigador. Curioso, voltou-se a
Cludio: - Onde estiveram presos?
     - Numa casa abandonada no bairro do Catete, mas no
sei o nmero nem o nome da rua.
     - Sua roupa est muito suja. Maltrataram voc?
     - Ela est assim porque tentei uma fuga - depois abra-
ou o pai de Pat. - Tudo vai acabar bem, seu Rogrio.


    O Baixo e o Alis chegaram em poucos minutos ao local
do encontro. Haviam corrido os ltimos cem metros. Dentro
do Opala estavam apenas Pat, Nariz e Tereca. Os outros, perto,
procuravam encenar uma conversa sobre dolos do rock. O
Baixo entrou no carro com a maleta.
    - Tudo bem at agora. Vamos dividir depressa.
    Os demais aproximaram-se do carro.
    - Cada pacote destes deve ter um milho - disse Nariz.
- Um, dois, trs, quatro, cinco. Isto  seu. Pequins. Um
abrao e um queijo. Enfie no bolso e suma.
    Pequins pegou o dinheiro e afastou-se um pouco.
    - O meu - pediu Alis.
    - Eram dez, no?
     - Era dez mas quero mais. Estive em quase todas.
     - Leva quinze, tiro cinco do Baden.
     - Ele vinte e cinco e eu quinze?
     - Vinte pra cada um. Um abrao e um queijo.
     O Baixo ajudou a contar a parte de Tito e a de Baden.
Agora era tirar a dele e os dez de Tereca.
     - Vamos cair fora, turminha brava - disse Baden, cami-
nhando at a esquina.
     Pequins correu atrs dele.
     - Posso ir com voc?
     - Vou pra Salvador. Mas venha. S que tem uma coisa.
 Antes preciso passar num lugar.
     --T.
                                                           105
            UMA FORTUNA SOBE O MORRO
         Alis foi subindo o Morro. L perto morava o Sebo.
   Queria tomar uma cerveja com algum que no estivesse envol-
   vido, e contar tudo como acontecem. O gostoso ia comear.
   O que faria com o dinheiro? Puxa! Arrancara mais dez na
   ltima hora. Sempre ouvia falar em caderneta de poupana.
   Os vinte dariam para viver de juros? No sabia, precisava ir
  a um banco para se informar. O que achava era que merecia
   um longo repouso. Subindo o Morro  que sentia como estava
  cansado. A tenso fora demais, da a sede. Algum passou
  por ele e o olhou. Lembrou-se de que muitos o conheciam por
  causa do gorro. Alis sem o gorro seria outra pessoa. E dei-
  xando de dizer alis a todo momento, a sim, ningum mais o
  reconheceria. Arrancou o gorro da cabea e jogou-o l em-
  baixo. Continuou a subir, pensando na tal caderneta de pou-
  pana. Diziam que ela multiplica o dinheiro, seria ou no seria?
        Viu a casa de Sebo e uma luz na sala. Ele fora um bobo,
  teria tido sua parte se no tivesse cado fora. A porta estava
 aberta. Entrou. Sebo estava sentado com os olhos fixos na
 televiso. Nem percebeu a presena de Alis.
        - Eu j sei como acaba essa novela.
        Sebo olhou para trs, viu Alis e saltou de p.
        - Voc? Onde esto os outros?
        - Todos em cana - brincou Alis.
        - Como assim?
       - Crocodilagem da grossa. Algum deu o servio.
       - No fui eu - disse Sebo sem conseguir sair do susto.
 - Juro que no fui eu.
       - E eu estou dizendo?
       A me de Sebo, Isaura, que estava noutro quarto, apare-
ceu na sala. Ao ver Alis comeou a tremer, os lbios mais
que tudo. O quadro ficou esquisito, me e filho assustados
como se vissem um drago. Para Alis a brincadeira acabou ali.
       - Meu filho no delatou ningum, ningum, ningum -
ela se ps a gritar.
       - Ah, ela sabia? J tinha comeado a piar, gordo? Ou
foi ainda mais longe? Vamos, Sebo, conta a histria. Desem-
buche.
       Sebo ficou corajoso.
106
      - Isso mesmo. Mandei um pl  polcia. Fiquei com
pena daqueles dois. Se veio pra acertar, estou aqui.
      Alis no entendia; a polcia no havia chegado e estava
belo-belo com vinte no bolso. Mas, pelo jeito, escapara por
aquilo que chamam de triz. No era de arrebentar ningum;
ia s dar uns bofetes. Foi o que fez. A cara gorda do Sebo
era boa para isso. Deu um, deu outro e ia parar quando o
engraxate lhe deu o maior pontap na coxa. Revidou com
socos, um no ar, outro no estmago. Levou uma joelhada na
lateral que quase perde o equilbrio. Teve de levar mais a srio
para no perder a parada. Partiu para a violncia total, mas
Sebo o segurou, e a luta, expandindo-se, tomou a sala inteira.
      Dona Isaura foi  janela, pondo-se a gritar por socorro.
      - Esto matando meu fiiiiiiiilho! Salvem o meu fiiiiiiiilho!
      Alis procurava lembrar-se de todos os golpes sujos para
castigar o gordo, que se agarrava a ele, impedindo seus movi-
 mentos. O receio de Sebo era que o outro tirasse alguma arma
 do bolso, j que fora l para vingar-se. O engraxate nunca fora
 bom de briga, porm sabia segurar e fazer uso de seu peso.
 Quando se atracavam de encontro a uma mesa, o dinheiro do
 seqestrador comeou a cair pelo cho, logo pisado e espalhado.
 Isaura correu para impedir que o televisor, ameaado, despen-
 casse. Nisso viu o dinheiro jorrando dos bolsos da cala de
 Alis.
       Primeiro chegou um homem com um guardanapo no pes-
 coo, depois outro, vestindo um pijama, depois o vendeiro dum
 quiosque, vizinhos de dona Isaura. Mas tanto esses quanto
 outros que iam chegando  porta e  janela olhavam mais para
 o dinheiro que para os rapazes brigando. Jamais se vira naquele
 morro fortuna igual.
       - Esse moo que raptou aqueles dois garotos! - gritou
 Isaura. - Esse deve ser o dinheiro do resgate!
       Ento, sim, os vizinhos movimentaram-se para segurar
 Alis. Fcil, porque j estava exausto. Apenas quando viu o
 outro dominado  que Sebo notou o dinheiro esparramado
  pela casa.
       - O que foi? - perguntou a Alis. - Pagaram o resgate?
       - A polcia no chegou, eu estava brincando - disse
  Alis.
                                                               107
                                                W3
     A essa altura dezenas de curiosos acotovelavam-se diante
da casa. Briga e dinheiro sempre so grandes atraes. Dois
guardas foram entrando.
     - Que  isso? - perguntou um dos guardas. - Algum
ganhou na esportiva?
    Dona Isaura pegou um jornal com uma grande reportagem
sobre o seqestro.
    -  dinheiro disto aqui. moo. O magro  um deles.
    - E o gordo?
    -  meu filho, um trabalhador - acrescentou apontando
orgulhosamente sua caixa de engraxate.



                     ENQUANTO ISSO
     Assim que Baden, Alis, Tito e Pequins tomaram seu
destino, o Nariz e o Baixo voltaram a fazer a diviso.
     - No acho justo voc ficar com noventa e eu s com
quarenta - disse o Bixo.
     - Tem os dez da Tereca.
     - Mesmo assim. Eu bolei quase tudo e fiz o pior, entre-
gar o garoto.
     - Mas a idia foi minha. Tudo nasceu da minha cabea.
     Tereca, sentada ao lado de Pat, olhava pela janela do carro.
108
    - Esto vendo aquele bebum? Ele estava l na rua do
resgate. Pra mim o cara  tira.
    Nariz girou a chave do carro:
    - Vamos dividir o resto mais alm.




              BADEN E PEQUINtS:
        O QUE FIZERAM COM OS MILHES
    Baden e Pequins pegaram um txi. Desceram no Catete.
    - Onde vamos? - perguntou Pequins.
    - Esqueci o violo. Vou apanhar na Toca.
    - No tenho coragem de entrar l - confessou o garoto.
- Eu espero.




    Baden empurrou o porto e entrou. S se podia fech-lo
por dentro. Estava muito escuro, mas sabia andar pela Toca at
com os olhos vendados. Foi para o depsito, ainda cheio de
camisetas e outros produtos furtados. O que lhe interessava
era o violo. De um novo talvez no gostasse tanto. O tal
valor estimativo. Passou os dedos pelas cordas. Bom som.
     - Qual vai ser o primeiro nmero?
     Baden olhou: trs faroletes.
                                                           109
        - Quem so vocs?
        - Os novos inquilinos.
        Baden tentou rir.
        - Ah, amigos do alheio... Fiquem com tudo. A mim s
 interessa esta parte da moblia. Um abrao e um queijo.
        Ia sair mas se sentiu cercado pelos trs faroletes.
        - Deixe-nos ver o que tem nos bolsos. Se estiverem va-
 zios talvez lhe daremos algum - a voz e as mos eram do
 investigador Walmor. Foi retirando maos de dinheiro da roupa
 do violonista. - Onde toca? No Caneco. Pagam bem l. no?
 Quanto tem aqui?
       - Vinte. Fiquem com dez e no se toca mais no assunto.
       - Seu nome?
       - Me chamam de Baden.
       - Tenho alguns discos seus. Nunca pensei que um dia
 iria prend-lo.
       - So da polcia?
       - Chegamos a trs minutinhos. Onde esto os outros?
       - No sei. Rompi com eles.
       Walmor algemou-lhe os pulsos.
       - Provavelmente por questes morais, no?
       Os trs investigadores foram levando Baden para fora do
 casaro, um deles levando o violo. Pequins estava diante do
 porto. Ao ver Baden algemado, com os trs homens, ficou
 paralisado por uns instantes e depois comeou a correr. Dois
investigadores o perseguiram. Mas ele no foi longe. Um carro
o apanhou e o jogou na calada, no muito distante da Toca.
      - Era um dos seus? - perguntou Walmor.
      - Era.
      - Est morto         disse um dos investigadores ajoelhado
ao lado do garoto.
      Formou-se uma pequena aglomerao. O homem que diri-
gia o carro estacionou logo alm e aproximou-se quase deses-
perado.
      - No tive culpa, no tive culpa - foi dizendo.
      - Calma, moo - disse-lhe Baden. - Quando ele nasceu
foi jogado numa lata de lixo. J est acostumado com as coisas
que acontecem na rua.
110
             POR QUE NO SOLTAM PAT?
      Nariz dirigiu o Opala mais uns cinco minutos.
      - Pare Nariz. Vamos soltar a moa. Tereca, desamarre
as pernas dela.
       Tereca obedeceu prontamente, ansiosa por abandonar o
carro, e Pat pde respirar melhor com as pernas livres.
      Nariz brecou o Opala perto duma esquina, olhando, aflito,
para todos os lados.
       - Vamos dividir o dinheiro - disse o Baixo.
       - Ainda no, mais alm.
       - Ento, soltemos a moa.
       Nariz exp(.s seu receio:
       - Se a gente soltar agora, num minuto este quarteiro
estar cercado. Pensa que so bobos? Com ela aqui estamos
mais garantidos. Vamos espirrar daqui - disse, pondo o carro
 em movimento e ligando o rdio.
       - Para onde vamos?
       - Zona Sul, no movimento estaremos mais protegidos.
       Cinco minutos depois o rdio deu a primeira notcia sobre
  o resgate. Todos ouviram em silncio:
     Cludio Menezes j foi entregue pelos seqestradores, mas
     Patrcia continua nas mos deles. J se sabe que usam um
     Opala branco, roubado hoje  tarde em pleno centro. Mas
     esto chegando algumas notcias quentes: aguardem.

     -   Viu? J sabem que estamos num Opala - disse o
Baixo.
    - S paro na Zona Sul - respondeu Nariz. - Onde a
gente possa entrar num txi. Entendeu, baixinho?




         QUE BOM! CLUDIO REV SUA ME!
    Quando Cludio entrou no 432 seus pais correram para
abra-lo. Mas Ana no participou da festa, nervosa.
    - E Patrcia?
                                                              111
      - Acho que j devem ter soltado. Seu marido ficou com
 os policiais. Vim num txi dirigido por um investigador.
      Celina abraava Cludio e chorava.
      - Como voc est sujo!
      - Sujei a roupa num telhado. Tentei fugir ontem  tarde.
      Ana s queria fazer perguntas:
      - Patrcia est bem?
      - Est, sim.
     - No maltrataram ela?
     - No, s queriam o dinheiro.
     - Onde vocs estiveram todos esses dias?
     - Numa casa abandonada no bairro do Catete.
     - Quem eram eles? - quis saber seu pai.
     - Um bando de menores. Havia at uma mocinha na qua-
drilha.
     - Vocs se alimentaram? - perguntou Ceina.
     - Muito mal,. s comemos sanduches, algumas frutas e
cocadas. Gostaria agora de tomar um banho e de trocar a
roupa.
     - Sua mala est aqui, neste apartamento - disse Celina.
- Se soubesse como sofremos nesses dias!
     Ana, ainda muito nervosa, largou-se numa poltrona.
     - E este telefone que no toca!




             COMAM DOCES, TITO PAGA
     Assim que pegou seu dinheiro, Tito se afastou ligeiro e
apanhou o primeiro nibus que passou. Nem sabia seu itine-
rrio. Sentado, esqueceu logo de tudo. Fixou-se no presente,
representado pelos seus bolsos inchados. Nunca tivera nem ima-
ginara ter tanto dinheiro. Fez a viagem de nibus sorrindo, at
o ponto final, no velho centro do Rio. No primeiro telefone
fez uma ligao.
     - Mana, aqui  o Tito!
     - Voc, o desaparecido!
112
     - Estou indo pra casa, mana. Sabe da melhor? Ganhei
na esportiva. Mas nada de bilhes. Apenas quinze tijolos. Es-
to aqui, comigo, nos quatro bolsos.
     - Ganhou de verdade?
     - Ganhei, sim, juro que no foi daquele jeito. Me espere.
Vou comer uns doces e me piro. Um abrao e um queijo.
     Desligou, feliz. Foi andando pela Cinelndia, dono da
cidade. Amava o Rio desde que chegara do interior do Estado.
Naquele centro, pegando e correndo, comeara a roubar. s
vezes, s para comer doces. Por sinal l estava uma confeitaria.
Entrou e foi logo pondo a mo numa bomba de chocolate. E
aquele de nozes? Antes daria um ano de vida por ele, agora
poderia comer quantos quisesse. Enfiou um na boca. O den-
tista do instituto dizia que doce provoca cries nos dentes. Bes-
teira. Viu um todo coberto de cerejas. Comeu dois duma vez.
A seu lado Tito notou dois garotinhos morrendo de inveja. Seu
corao falou.
      - Querem doces? Podem pegar. Eu tambm j fui pobre
e sei o que  isso. Sirvam-se.
      Os garotinhos gostavam de doces tanto ou mais que ele.
      O dono ou gerente da confeitaria aproximou-se, preo-
 cupado:
      - Quantos doces j comeram?
      - Uns doze.
      - Sabe quanto custa cada um?
          Depois voc me diz, agora estou ocupado.
      - Tem dinheiro para pagar isso? Esse de cereja 
 mais caro.
      Tito irritou-se:
      - Dinheiro no  problema. Vocs vo querer mais? O
 de chocolate  o mximo!
       Os dois garotinhos no esperaram que reforasse o con-
 vite. E logo um terceiro menino surgiu ao lado deles.
      -  festa? - perguntou.
      -  festa - confirmou Tito. - Coma tambm.
       O dono ou gerente da confeitaria j fora muitas vezes
 vtima desse tipo de assalto: meninos que se fartam de doces e
                                                              113
 depois correm para a rua. Aquele maltrapilhozinho no teria
 dinheiro para fazer tanta despesa. E sua generosidade era de
 quem no pretendia pagar a conta. Quem paga conta os doces
 que come ou que oferece. Foi at a porta e fez um sinal para
 algum.
       Tito estava com a boca cheia, no comera tantos doces
 nem no casamento da mana. Os outros esfomeados j haviam
 devorado toda uma bandeja de floresta negra. Para ele aquilo
 no era bem uma extravagncia, era uma despedida. Dentro de
 uma hora, j na casa da irm, comearia sua vida de menino
 direito.
       O dono ou gerente da confeitaria aproximou-se dos garotos
 acompanhado dum homem engravatado. Este perguntou:
       - Eh, garoto, com que dinheiro vai pagar isso?
       Tito achou que j era momento de parar.
       - Pessoalzinho, chega.
       - Contou os doces? - perguntou, preocupado, o dono
 ou gerente da casa.
       - Leva cinqenta, est bom? Ns quatro comemos uns
 trinta.
       - Mostre o dinheiro .- ordenou o homem de gravata.
       Tito tirou um mao de dinheiro do bolso. A essa altura,
o da gravata olhava para seus quatro bolsos, recheados. Era
mesmo de chamar a ateno. Apalpou-os.
       - O que  isso? Assaltou um banco?
      - Ganhei na esportiva - disse Tito, j apressado.
      Os trs meninos correram para a rua.
      O da gravata segurou Tito fortemente pelo brao.
      - Tudo bem, filho. Vamos para a delegacia.
      - Eu no roubei isso!       protestou Tito.
      - No roubou, mas pode ter fraudado o imposto sobre a
renda. O ministro da Fazenda vai ficar muito zangado.
      Tito tentou se livrar dos dedds que lhe apertavam o brao,
mas o dono.ou gerente da confeitaria e um balconista o domi-
naram facilmente.
      - Felicidade de pobre dura pouco - murmurou Tito.
114
       MGICA: O CARRO BRANCO FICA PRETO
     Nariz continuava dirigindo o Opala rumo  Zona Sul. A
seu lado, o Baixo protestava:
     - Pare o carro pra gente dividir.
     - Sei o que fao, Pouca Sombra - respondeu Nariz.
     O Baixo no gostava que o chamassem assim. Sentiu que
o que Nariz queria, mais que tudo, era o comando. Ouviram
os acordes musicais que anunciavam o noticirio.
     - Ateno! exclamou Tereca. - Vo falar.
     O noticiarista:
      Patrcia ainda no foi libertada pelos seqestradores. Mas
      dois j foram localizados e presos pela polcia.

      - Ouviram isso? - bradou Nariz.
      Ainda o rdio:
      So menores delinqentes com inmeras passagens pelos
      reformatrios e igual nmero de fugas. Apenas conhece-
      mos seta apelidos, Baden e Alis. Um terceiro, de doze
      ou treze anos, ao tentar escapar, foi atropelado por um
      carro. Teve morte instantnea. Seu apelido era Pequins.

      - Esto vendo? - gritava Nariz. - Estavam o. tempo
todo em nossa cola. Em menos duma hora j pegaram trs. E
se no nos grampearam at agora  porque estamos com a
garota. Ela  nosso escudo. Sem ela por perto a gente se ferra.
      Agora era Tereca que estava com medo:
      - Vo nos apanhar de qualquer jeito!
      - Enquanto estivermos com ela, no!
      - Assim que chegarmos  Zona Sul voc pra? - ela
insistiu.
      - No, estou com outra idia - disse Nariz.
      - Que idia? - perguntou o Baixo.


     Rogrio estava na delegacia. Tomara muito caf e fumara
vrios cigarros  espera de notcias sobre a filha.
116
     - Quarenta e cinco milhes j foram recuperados - disse
o delegado. - E foi preso mais um garoto que talvez esteja
envolvido no caso.
     - O que eu quero  minha filha - desesperava-se Rogrio.
     - No vamos perder os seqestradores de vista - garan-
tiu o delegado. - Esto sendo seguidos com cautela. Recebe-
mos um rdio informando que se dirigem aqui pra Zona Sul. E
todas as estradas esto fechadas para os Opalas brancos..
     - Meu medo  que a matem - falou Rogrio.
     - No vai acontecer - disse o delegado. - Eles s que-
rem escapar.


     O Opala branco surgiu, lento, numa pequena praa mal
iluminada. Parou perto dum Chevette preto, dentro do qual
um jovem casal namorava. O cano dum revlver foi encostado
na cabea do namorado.                               -
     - Desam depressa - ordenou Nariz. - Trata-se duma
troca. Podem ficar com meu Opala. Gasta muita gasolina:
     O casal de namorados saiu assustado. Nariz empurrou Pat
no banco traseiro. Ele e o Baixo ocuparam o dianteiro, porm
Tereca no entrou no carro.
     - Aqui eu fico - disse. - Baixo, depois voc leva a mi-
nha parte; Vou assistir ao final desta novela pela televiso.
  - Nariz deu a partida. O Baixo olhou pela janela, viu o casal
de namorados e Tereca, que desaparecia andando apressada-
mente.
     Pat, muda o tempo todo, pediu:
     - Me deixem descer agora.
     - Voc no me d ordens, garota! - respondeu Nariz.
- Sei quando devo solt-la.
     - Logo a gente d uma paradinha - tranqilizou-a o
Baixo.
     Nariz ligou o rdio quando uma emissora noticiava:
     Outro seqestrador acaba de ser detido numa confeitaria,
     garoto de treze anos. Nos bolsos levava quinze milhes de
     cruzeiros, sua parte no seqestro. Patrcia, porm, ainda
     no foi libertada, de acordo com a promessa, tendo desa-
     parecido num Opala branco.

                                                            "7
     - Tito! - exclamou Nariz. - Que calhorda! Imagine se
 hora para comer doces!
     - Cuidado, no corra tanto!
         Confie no motorista, Pouca Sombra. Agora, noutro
carro, estou me sentindo o bom! Vamos voar!




             PERSEGUIO NA ZONA SUL
     O delegado dissera a verdade: seguido  distncia, o Opala
branco foi encontrado na pequena praa por uma viatura. Os
namorados ainda estavam l. Ao ver os policiais, agitaram os
braos.
     - Levaram o meu Chevette - disse o namorado. - Os
ladres estavam nesse Opala.
     - Viu alguma mocinha com eles?
     - Duas. Mas uma desceu e foi embora.
     - Diga agora a cor e a placa de seu carro.


     Cludio, j tendo tomado banho e trocado a roupa, apa-
receu diante dos pais e de dona Ana, todos aguardando notcias
pela televiso e pelo rdio tambm. Havia l outra mulher, tia
Elisa, que foi apresentada ao rapaz.
     - J se sabe alguma coisa de Pat? - perguntou.
     - No ainda - disse Walter. - Mas quatro seqestra-
dores j foram apanhados.
     - Por que ser que no soltam Pat? - indignou-se Clu-
dio. E de repente sentiu um medo crescente de no v-la
nunca mais,


     - Que tal esto achando a maciota? - perguntou Nariz.
     J na Zona Sul, em Ipanema, sentindo-se seguro no Che-
vette, Nariz tirou o p do acelerador.
     - Acho que j pode parar para fazer a diviso e soltar
a moa.
118
         No seja mal-educado, Pouca Sombra. Vamos mostrar
o Riq a ela. D uma olhada na praia, Patrcia. Em Brasilia
no tem disso. A gente podia lev-la ao Po de Acar. Como
 que chamam mesmo aqueles caras que andam com os turis-
tas? Um nome engraado. Ah, lembro! Cicerone. Acho que
eu dava pra isso.
     O Baixo, no to calmo como o Nariz, olhava para os
lados e pela janela traseira. Sua voz saiu soprada.
     - Nariz, acho que so eles
     O motorista olhou pelo retrovisor.
     - Ser que esto atrs da gente? - perguntou Nariz,
subitamente aflito.
     - D passagem pra eles.
     Nariz conduziu o carro bem para a lateral, mas o Fusca
policial no passou. Quase emparelhou-se com o Chevette.
     - Esto olhando pra gente! - disse Nariz. - O jeito 
correr.




    Nariz pisou fundo no acelerador, fazendo os pneus range-
rem. Pela janela traseira, o Baixo viu o Fusca tambm na
velocidade. Mas havia trnsito e Nariz tinha de costurar. O
Baixo voltou-se para Pai:
    - Segure-se bastante, garota!
    Ao tirar uma fina dum Mercedes estacionado, Nariz quase
perde a direo, mas no se tornou mais cauteloso por isso.
                                                         119
 Estava apavorado e com raiva do azar. O Baixo, sempre
 olhando para trs, ia dizendo se o Fusca estava mais longe ou
 mais perto.
       - A gente j se livrou deles?
       - Que nada, esto querendo atirar no pneu!
       - Pare! Pare! - gritava Pat.
       - Cale aboca! Ningum vai parar!
       Estavam em Copacabana, o trnsito ia se intensificar mais.
 O Baixo olhou e viu o Fusca bem perto.
       - Esto colando, entramos pelo cano. O melhor  encos-
 tar e tentar fugir com a maleta.
       Nariz viu um bom espao aberto em sua frente, acelerou.
 A aconteceu qualquer coisa, o pneu furou ou foi alvejado. O
 Chevette, como se rodopiasse numa pista de gelo ou como um
 toureiro incapaz de escapar dos chifres do touro, bateu noutro
 carro e depois estourou de encontro a um poste.
       O Fusca da polcia tambm encontrou dificuldade para
brecar sem se chocar com o carro dos seqestradores. Parou
muito adiante. Trs policiais correram para o local do desastre.
A primeira coisa que viram foi um mocinha tentando aban-
donar o veculo.
      - Voc  a moa seqestrada?
      - Sou - respondeu Pat.
      - Est ferida?
      - No sei. Estou tonta.
      O que viajava do lado do motorista sofrera todo o impacto,
imvel e ensangentado. Um dos policiais o examinou.
      - Parece morto.
      - E o que dirigia? - perguntaram a Pat.
      - Fugiu com a maleta do dinheiro - disse ela.
      Outro Fusca da polcia parou ao lado.
      - Pegaram todos? - perguntaram.
     - Um escapou com uma maleta com o dinheiro, mas
deve estar perto. Vamos procur-lo. Algum fique com a
menina e se comunique com a central.
120
Por um descuido, Baixo encontrava ali o seu fim,
 e Nariz era forado a abandonar seus sonhos.
               FELIZ ANIVERSRIO, NARIZ!

        Na confuso que se estabeleceu, Nariz correu com a maleta
  para o outro lado da avenida. Entrou num cinema. Felizmente,
  vspera de feriado, havia sesso da meia-noite. Pouca gente na
  sala. Ps o tesouro no cho e fixou o olhar na tela. Filme de
  bangue-bangue e dos bons. Conseguiu acompanhar o enredo,
 mas sem esquecer que, segundo seus clculos, estava com cento
 e quarenta milhes. Aquela noite realizaria o sonho de dormir
 sobre um colcho de dinheiro.
       Terminada a sesso, Nariz levantou-se e foi saindo com a
 maleta. Com naturalidade. Achou que seria ainda mais natural
 se assobiasse. Lembrou uma das prediletas do Baden e pisou a
 sala de espera, quase vazia.
       Um homem sorridente se aproximou dele e abraou-o, um
 abrao para imobilizar movimentos. Era Walmor. Outro inves-
 tigador arrancou-lhe a mala da mo, enquanto o prprio Wal.
 mor lhe tirava o revlver. Havia dois outros por pert.
       - Gostou do filme? - perguntou Walmor.
       - Como souberam que estava aqui?
      - Voc no poderia ter se afastado muito. Comeamos a
 fazer perguntas. At chegarmos ao bilheteiro do cinema. Como
 no h outra porta, esperamos.
      - E ele viu eu entrar com a mala.
      - No, ele no viu a mala. Lembrou-se do BEM-VIN-
DOS AO RIO de sua camiseta. Voc trocou de carro, mas se
esqueceu de trocar de camisa.
      - Ningum  perfeito. O que aconteceu ao Baixo, o que
estava comigo no carro?
      - Morreu - respondeu Walmor.
      - E a garota?
      - Teve muita sorte. Nem um arranho.
      J no carro policial, Walmor disse a Nariz:
      - Voc merece uma grande pena. Mas o fato de ser me-
nor vai livr-lo outra vez.
      - Espera - lembrou Nariz. - Que dia  hoje?
      - Dia 5.
      - Se no estivesse preso, convidaria vocs para uma cer-
veja. Hoje fao anos. Agora sou maior de idade. A cana vai
ser brava.
122
           QUAL FOI O PIOR MOMENTO?
      A chegada de Pat com seu Rogrio no apartamento 402
do hotel Royal foi uma festa. Todos abraaram Pat e depois
todos se abraaram. O abrao mais longo foi de Cludio. A
houve unia invaso: jornalistas e reprteres da televiso para
gravarem uma entrevista com os dois. Profissionais que Clu-
dio e Pat conheciam h muito tempo, pelo vdeo, gente famosa,
estava ali para lhes fazer perguntas. Cada um aguardando
sua vez.
      Cludio e Pat mostraram-se muito mais desembaraados
do que sempre foram. Quem passara pelo que haviam passado
no podia ter medo de cmeras e microfones.
      - Qual foi o pior momento que vocs enfrentaram?
      - Quando Cludio tentou fugir e eu, presa no quarto, no
 sabia se ele tinha conseguido ou no - respondeu Pat.
      - Meu pior momento foram estas ltimas horas. Eu, j
 livre, aqui no hotel, sem saber o que acontecia com Pat.
      O entrevistador sorriu maliciosamente.
      - Um preocupando-se com o outro. No sei o que ainda
 vai acontecer com esses dois...



       TERECA,  JANELA, V O SEU DESTINO
      No dia seguinte logo cedo, ouvindo o rdio, Tereca ficou
sabendo de tudo. Estava na casa da tia, vendo os carros passa-
rem na estrada, s o que havia para fazer l. Aproveitou que
a velha Jlia fora comprar caf para chorar, mas sem rudo,
apenas deixando as lgrimas rolarem pelo rosto. A morte do
Baixo era a ltima coisa que podia esperar. Ento, fatos assim,
to inesperados, acontecem? Pena que somente agora, atravs
da notcia do rdio, descobria que gostava muito dele. Teria
de reviv-lo pelas recordaes.
       A tia entrou com o nada de caf que foi comprar. Estava
feliz.
       - No esperava que voltasse to cedo, T.
       - Acho que vou passar algum tempo com a senhora.
       - E quando vai viajar?
       - No sei, tia. As coisas mudam. Talvez no v.
                                                            123
       A velha da casa na estrada ensaiou um sorriso tmido.
 Aproximou-se da sobrinha com esperanas.
       - Se no for, ficar comigo? Aqui no  to mau. A
 gente se entretm com os carros que passam.
       Tereca olhou pela janela e no como quem promete, mas
 como quem cumpre seu destino, disse:
       - Ficarei, sim. Claro. Eu gosto daqui. Estou de vol-
 ta, tia.




  A VOLTA DA CAMISETA: BEM-VINDOS AO RIO
     No dia seguinte, feriado, todos levantaram tarde. Cludio
ficou muito contente ao saber que os pais de Pat estavam hos-
pedados no mesmo hotel. As duas famlias tomaram o caf da
manh juntas.
     - Eu queria propor uma coisa - disse Walter ao pai
de Pat.
    --Diga.
    - Recebemos nosso dinheiro de volta, no?
    - No perdemos um nico cruzeiro.
    - Ento o que me diz, para comemorar, que fiquemos
mais alguns dias no Rio?
124
       Rogrio achou graa e passou o brao em tomo do ombro
  da sua mulher.
       - Sabe que pensei nisso? O que diz, Ana?
       - Acho que estamos todos merecendo uns dias de frias.
       Celina foi a ltima a falar, porm a mais entusiasmada.
       - Quero me divertir como nunca. Estou precisando disso.
 Desesperadamente.
       Pat e Cludio entreolharam-se: Ser que algum desejava
 essas frias mais que eles? Duvidaram.
       Mais tarde, no saguo do hotel, os dois foram ler os jor-
 nais, todos . com amplo e fotografado noticirio sobre o rumo-
 roso seqestro.
       - Ento o que chamavam de Baixo morreu mesmo -
 disse Cludio, vendo o retrato dele entre o dos outros seqes-
 tradores.
      - Morreu. Ontem no tinha certeza. Eu o vi, coberto de
 sangue, dentro do carro.
      - Ele tinha qualquer coisa - comentou Cludio. - Um
 jeito especial. Iria longe se tivesse tido uma oportunidade. Tal-
 vez haja milhares assim.
      - Ele pediu muito a Nariz para qu& parasse o carro.
 Queria me libertar logo. No talvez porque tivesse pena de
 mim, mas porque sabia conduzir as situaes.
      -  o que chamam de lder - disse Cludio.
      - A namorada dele foi a nica que escapou. Aqui diz
 que s o Baixo sabia seu endereo.
      - Um tal de Sebo, que no vimos no casaro, tambm
escapou. Havia mandado uma carta para a polcia. Chegou
tarde, mas provou sua inocncia.
      Estava um dia esplndido, manh dum cu e mar para
turistas. Cludio e Pat passeavam de mos dadas, j sem o
seqestro na cabea. s vezes, olhavam-se e sorriam.
      Subitamente Pat parou de andar, apavorada, abraou Clu-
dio com fora, a boca j aberta para um grito, e apontou, o
dedo trmulo, para algum que se aproximava. Era um rapaz
da idade e altura de Nariz, vestindo uma camiseta branca com
letras azuis: BEM-VINDOS AO RIO. Cludio, entendendo o
susto de Pat, sorriu, abraou-a tambm e beijou-a, dando-lhe
outro susto, este bom. O moo da camiseta, que passava, sorriu
para eles, levando seu sorriso pelo calado de Copacabana.
126
NO TEM QUEM NO GOSTE

  Para Gostar de Ler
             Sugerida para alunos de 5! a 8! srie.
               Acompanha Suplemento de trabalho
                    especfico para cada obra.
             A vida e a gente brasileira retratadas
             literariamente por alguns dos maiores
                      escritores brasileiros.




Nos volumes de 1 a 5, uma seleo das melhores crnicas de Carlos Drummond de
   Andrade, Fernando Sabino, Rubem Braga e Paulo Mendes Campos.
No volume 6, a reunio de poemas de Cecilia Meireles, Henriqueta Lisboa, Mrio
   Quintana e Vincius de Moraes.
No volume 7, uma coletnea de crnicas de Carlos Eduardo Novaes, Jos Carlos
   Oliveira, Loureno Diafria e Luis Fernando Verissimo.
No volume 8, uma reunio de contos de sete grandes escritores: Ciraciliano Ramos,
   Igncio de Loyola Brando, Jos J. Veiga, Lima Barreto, Luiz Vilela, Marcos Rey
   e Stanistaw Ponte Preta.
No volume 9, uma reunio de contos de mais sete grandes escritores: Clarice Lispec-
   tor, Joo Antnio, Lygia Fagundes TelIes, Machado de Assis, Moacyr Scliar,
   Murilo Rubio e Wander Piroli.
No volume 10, contos que so obras-primas de nove dos nossos melhores escritores:
   Aluisio Azevedo, Antnio de Alcntara Machado, rico Verssimo, Guimares
   Rosa, Ivan Angelo, Mrio de Andrade, Origenes Lessa, Otto Lura Resende e
   Ricardo Ramos.


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   IX)             DA POA PRETA

   F
                                           k




   TUaCO(CARNi.       u UAOAVE          XISTO E)) PASSRO                   SOZiNHA NO MUNDO
                       OUVE PAIRO             CS              FIEPOHTAOEM




                                                                                 ;R


                          NL1YRP!




                   :                           '   1 4' Y
                                                                                  Pra           r tr e criar -
                                                                                                  Ia leitura.
                                                                                   - .            ocionanteS.
                                     -                                                            ,o. uma
                            W         \                  1                                        imples e
                                      \..                           ___         d
                                                                                  COM umSuPiemj

                                ..
                                                                                [IN 85 08 01583
